sábado, 30 de julho de 2011

LEMBRANÇAS
                Eram seis horas de uma manhã de domingo.  Um vento gelado, típico de junho cortava o ar e entrava pelas frestas da janela quando ela levantou-se para preparar o café.  Não precisava levantar tão cedo já que não era dia de trabalho na fabrica onde enrolava balas de caramelo, mas mesmo assim saiu de sob o cobertor puído pelo tempo como de costume.
                Abriu vagarosamente a porta, que rangia por falta de lubrificação, como se tivesse medo do que poderia estar no quintal.  Ouviu um galo cantar tristemente ao longe e dirigiu-se para o fogão de quatro bocas para esquentar a água e foi acordar a neta. A filha iria dormir até mais tarde pois chegara às cinco da manhã de um baile funk que aconteceu naquela noite e terminou em tragédia com cinco mortos à tiros e outros três à Pauladas (coisa normal por aquelas bandas).  Ficara sabendo dos fatos depois por uma vizinha cujo o filho fora uma das vitimas.
                Encheu um copo, desses de massa de tomate, com o café forte e doce e sentou-se no batente da porta que se abria diretamente para o quintal onde um gato lambia preguiçosamente o cu.  Observou a cena e sorveu lentamente uma golada do café que lhe descia quente goela abaixo enquanto a neta subia na cama da mãe e lhe puxava o cabelo querendo atenção.             
                - Menina deixa tua mãe dormir senão ela vai te dar um coça!
                Olhou languidamente para uma touceira de bananeiras que tinha nos fundos, próximo à cerca mal cuidada de arame farpado.  Começou a lembrar do passado e lágrimas lhe vieram aos olhos ainda remelentos da noite de sono profundo junto ao amante.
                A primeira grande surra que levou foi do médico que fizera o parto. Eram gêmeos mas o menino chorou logo e ela já estava ficando roxa, por isso foi necessária a palmada. Mesmo assim deve ter doído muito porque o choro se espalhou por toda a sala de parto e adjacências.
                O pai queria menino e verbalizou: - Deveria ter morrido ela e a vagabunda da mãe! 
                Na certidão de nascimento um nome diferente que depois descobriram ser o nome de um demônio mitológico e sua história foi forjada através de surras cada vez mais violentas com o passar dos anos. Apanhava de todos: da mãe, dos irmãos mais velhos, da tia que morava próximo e principalmente do pai.  Ela era considerada ruim e não tinha jeito: só na “peia”.
                Era muito geniosa e quando não queria fazer uma coisa nem o cinto de couro do pai dava jeito.  Inchava como um sapo e prendia a respiração até ficar roxa.  Não suportava que lhes tocassem os cabelos que estavam sempre desgrenhados. Para pentear só à base de cascudos e mesmo assim sob muito protesto. “Maria Chiquinha” era arrancada tão logo fosse presa.
                Aos cinco anos ganhou a primeira grande surra do pai que chegara bêbado como de costume. Tinha que comprar uma carteira de cigarros “Continental com filtro” na taberna  que ficava próximo de sua casa mas na volta resolveu brincar de “pular macaca” com outras crianças da vila em que morava.  O pai esperava por ela na porta com o cinto na mão.
Agarrou o corpinho franzino e levantou-a no ar como a uma boneca de pano segurando-a  pelos finos e desgrenhados cabelos.  Bateu-lhe tanto que ela urinou e defecou na calçinha encardida.  Ela urrava de dor mas não vertia uma lágrima sequer (segundo o algoz era por causa de sua ruindade). O pai parecia odiar aquela criança (com os outros filhos era mais moderado nas pancadas).
Ela deu para esse pai o apelido de “onça”. Ele espancava a criança por qualquer motivo, tanto que quando ela lhe avistava ao longe já se urinava toda. Bastava alguém dizer: lá vem a onça que ela já se urinava, mesmo que fosse mentira.
Todos da casa temiam a esse homem (se é que um sujeito assim pode ser considerado humano): a esposa impotente, os enteados e seus filhos legítimos.  O interessante é que para os amigos ele era um santo mas todos sabiam que ele tinha varias putas e amantes.
A mãe lhe batia também, mas ela fugia se rindo, porque quem lhe batia naquele momento não tinha forças suficiente para  alcançá-la na corrida.  – Tu voltas sua cobra! A mãe dizia.  Mas acabava ficando por isso mesmo e ela esquecia a surra prometida.
O destino às vezes lhe pregava umas peças. Um dia, uma fuga da família inteira parecia ter  posto um ponto final em seu sofrimento: as surras paternas.  Fora uma época boa para todos e as surras diminuíram, exceto por ocasionais cascudos por causa de sua mania de não deixar que ninguém lhe tocasse os cabelos, fato este solucionado por uma carga de piolhos que fizeram com que lhes cortassem os cabelos à máquina.
E assim ela foi crescendo e se tornou adolescente sem vaidades e com uma menarca bem precoce.  Com o tempo, sua família feliz começou a se desestruturar e o irmão mais velho lhe substituiu o pai em gênero, numero e graus (literalmente). A mãe perdera o controle da situação e permitiu que o novo provedor assumisse esse papel nefasto e os espancamentos recomeçaram.  E agora eram divididos quase que equitativamente, porém, em virtude de seu gênio forte e sua propensão a fazer coisas que consideradas erradas, ela era quem apanhava mais.  Muito mais.
Nunca havia namorado, e aos poucos deixou as bonecas e começou a se interessar pelos feios e pobres rapazes que estavam disponíveis na redondeza.  Foram poucos, mas um em particular lhe interessou muito: era um negro alto, magro e pouco falante que morava próximo de sua casa.  Namoraram primeiro escondido.  Depois ela contou à mãe, pedindo-lhe permissão para continuar o romance.  A mãe lhe disse: - Fale com o seu irmão, se ele deixar tudo bem.  Acontece que no seio daquela família desmantelada pela falta de diálogo havia uma coisa que até então ainda não tinha se manifestado: o preconceito.  Com aquele crioulo, não esbravejou o irmão.
Ela continuou o namoro sem que ninguém soubesse.
Um dia, a irmã mais velha, que nutria um ódio velado pelos três mais novos falou ao irmão provedor, o que assumira o papel de pai, inclusive com direito à pedidos de benção.  Enquanto a pobre criatura estava na casa do namorado ele preparava um cenário macabro: um pedaço de mangueira de borracha verde, um pedaço de fio elétrico (cabo 12) dobrado em quatro pontas, uma ripa da grossura de um dedo, um cinto de couro com a fivela voltada para a ponta. Não satisfeito ainda, se armou de punhos e pontapés.
Vem cá sua filha da puta, disse ele.  Ela não entendia porque ele lhe chamava assim já que eram filhos da mesma mãe, embora de pais diferentes.  Isso com o consentimento da mãe que acabou chorando num canto sem fazer nada como era seu costume quando o filho mais velho resolvia descontar sua raiva nos mais novos.
A sessão de tortura começou.  Ele trancou-se no quarto com ela e disse: tire a roupa! Ela obedeceu e ficou só de calcinha para a cena primeva que já presenciara quando muito pequena.  Começou com um violento tapa na cara que lhe fez rodar e cair em canto do quarto perto de um criado mudo. Um chute na coxa esquerda estalou no ar.  Ela não emitiu um gemido sequer. Por que tu ta namorando com aquele crioulo? Disse ele.  Ela não respondeu e ele puxou-a pelo braço com força e, com um murro ela foi parar sobre a cama onde a pancadaria continuou. Agora com o instrumento mais sórdido: o fio elétrico. Cada açoitada fazia erguer sobre a pele um vergão vermelho de onde o sangue desceu depois. Foram pelo menos quinze chicotadas.  Por ultimo a mangueira verde terminou o serviço e foi neste momento que ela soluçou mas sem emitir um grito sequer.  Não satisfeito, mas já cansado de espancar a criatura indefesa ele ordenou a um dos irmãos para esfregar-lhe as costas com vinagre.  Foi nesse momento que ela chorou de verdade junto com o irmão que não entendeu porque teve que finalizar aquilo daquela forma tão cruel.  Foi nesse momento que ela disse num sussurro para o irmão que lhe limpava o sangue das costas, braços e pernas onde a mangueira e o fio haviam deixado seu legado:  Nunca mais ninguém vai bater em mim. Nesse dia ela fugiu de casa e nunca mais voltou.
Ainda sentada ao batente da porta com os olhos marejados ela pensou em todos os homens de sua vida, três: um para cada filho e o quarto que agora dormia sossegadamente em sua cama.  Pensou também em seus netos e na sua pobre mãe que há muito partira. Com tudo que lhe acontecera ela guardou em seu coração a coisa mais importante que um ser humano de sua magnitude podia guardar: o perdão

segunda-feira, 25 de julho de 2011


O Marido
                Não sei onde nem quando ele nasceu. Deve ter sido pelos anos 40 acho eu e pelo que imagino tinha ascendência árabe por parte do pai.
Não sei em que ele trabalhava. Só sei que ele era um homem grande e musculoso daqueles que produziam suspiros nas donzelas quando passava nas ruas cheias de poeira e calor com sua camisa engomada e as calças de linho que lhes marcavam o traseiro musculoso. Os braços eram duas “toras” capazes de agüentar duas mulheres dependuras quando se exibia nos puteiros onde costumava ficar  ou talvez morar. Parece que sua mãe era uma cafetina por conta das histórias que ouvi.  Nunca entendi direito pois eu era criança ainda.
                Eles se apaixonaram e casaram contra a vontade do pai dela (sua mãe já havia morrido quando ela ainda era criança – tuberculose e fora sepultada num cemitério em Xapuri, no Estado do Acre). Ela tinha entre 17 e 18 anos. Sei que sua primeira menstruação foi aos 17 anos, coisa normal naquele tempo. Hoje as meninas menstruam com 10 anos.
                Nasceu o primeiro filho. Um menino saudável de pele trigueiro como a do pai. Não faltava nada: leite em pó do bom, talco “Pom Pom”, e “Seiva de Alfazema” para misturar à água do banho.  Enfim tudo que uma criança precisava naquela época quando tudo era difícil de chegar à cidade em que eles moravam. Só tinha uma coisa que era estranha naquela família feliz: Moravam em um quarto alugado num puteiro famoso na cidade. O pai dela nem imaginava isso. “Vixe Maria” se descobrissem.  Mesmo assim, ali eram felizes os três.
 O bebê era coberto de mimos pelas putas que lá moravam e trabalhavam como se fosse um Jesus renascido.  Elas cuidavam do menino quando não estavam na função e ajudavam a pequena mãe nos cuidados para com ele.  Quando lhe davam banho, enfeitavam-lhe o pequeno pênis com os anéis que ganhavam de seus clientes e o seu pescoçinho com muitos cordões de ouro, também frutos de seu trabalho.
 A vida corria tranqüila e eles finalmente saíram do puteiro para morar numa estância decente perto de famílias decentes também. Não que as putas não fossem decentes, porém, naquela época era uma atividade considerada ruim.
Três anos se passaram, nasceu o segundo filho. Uma menina linda que se chamaria Petrovicka não se sabe porque, mas uma viagem inesperada para ele fez com que trocassem o nome dela que nascera no ano de fundação de Brasília.
Foram anos sem notícia desse marido. Sem dinheiro, a esposa teve que pedir para voltar para a casa do pai, avô das crianças. Ele era um homem grosso e severo e como se dizia na época “tinha cabelos na venta” – acho que isso aumentava o poder do homem.  A recepção foi muito estranha e realizada através de uma surra violenta com um cinto de couro e um murro que a deixou desacordada e depois doente por varias semanas.  Tudo isso na frente dos netos e da irmã mais nova.  Na época havia um ditado nefasto: “Quem como do meu pirão, prova do meu cinturão”.
Num certo dia ela soube que esse marido havia desaparecida nas águas caudalosas do Rio Madeira. Segundo os relatos ele havia caído do passadiço do barco em que viajava não se sabe para onde.  A esposa agora era uma pobre viúva com dois filhos pequenos para criar. E sem condições, sozinha não poderia sobreviver.  Como resultado a viúva casou-se de novo e de vestido preto não se sabe por quê.
O segundo casamento começou bem. O novo esposo aceitou convenientemente os filhos bastardos e com ela teve quatro filhos.
A pobre mulher quis dar um novo pai para os filhos antigos e um bom pai para os que nasceram.  O que ela não imaginava e que com pouco tempo o segundo marido tornou-se um monstro que assombrava à todos: ela, os filhos do finado e seus próprios filhos.
Insultos, porradas, humilhações e outras atrocidades inconcebíveis povoaram aquela pobre família que se sustentavam como gente através de um amálgama de união que os fazia sobreviver pois não tinham outra alternativa senão suportar aquilo tudo.
Um dia, os filhos mais velhos já eram adolescentes e os mais novos com idades entre 5 ou 7 anos, o falecido reapareceu. Durante seu desaparecimento (o afogamento fora uma farsa para fugir de um delito grave), tornara-se um homem muito rico. Era dono de uma empresa de transporte numa cidade do sudeste do país.
De longe, ele tinha informantes que lhes contavam tudo o que acontecia com sua (até então viúva) esposa e filhos. Ele havia casado no lugar onde enriquecera e já tinha três filhos. Nesse lar que constituíra por lá, era como uma espécie de galo (comia não só a esposa de fato como a irmã dela, sua sogra, empregadas, babás ou quem mais aparecesse).
Tudo ele contou à antiga família e, vendo a miséria em que viviam resolveu raptar à todos – sua antiga esposa, filhos e agora os filhos do outro – o monstro. Levou todos para o sudeste junto com mais outro filho que até então era um mistério para todos. Eram sete pessoas ao todo, mas na verdade cada um era uma “mula” para muito contrabando que pagaria em muito as despesas com o transporte de tanta gente.  Meteu toda aquela gente na casa onde era o senhor absoluto,  temido e respeitado por todos que lá residiam.
                Pense na loucura: a antiga família com os agregados, a outra família e seus agregados tudo misturado num “balaio de gatos” onde todos tentavam se entender e entender a situação.
                Com o passar do tempo ele resolveu dar um lugar para a antiga família morar e mais uma vez abandonou a todos à sua própria sorte, afundados na miséria e na dor do abandono. Mas eles, como baratas, sobreviveram mais uma vez. Agora era diferente porque a amálgama de união fora desmanchada pois ninguém naquela família se entendia mais.
                Após alguns anos, o marido morto e revivido morrera de verdade. Na miséria, abandonado por todos, tratado como um bicho que tinha que necessitava de fralda para não sujar a casa já imunda pelo descaso de seus filhos e esposas que também foram abandonados à própria sorte.

quarta-feira, 20 de julho de 2011


A MÃE
                Mamãe era uma mulher extremamente espirituosa. Sempre tinha uma resposta e uma explicação para tudo (Deus, doenças, planetas, plantas, santos, remédios etc.). Mesmo que não fosse aquilo exatamente que a gente queria mas ela sempre aproximava de uma coisa que demonstrava coerência.  Como ela, tornei-me assim também.
                Estudou pouco. Concluiu o ginasial pelo Projeto Minerva no começo dos anos 70 bem no auge da ditadura militar. Trabalhava de dia e estudava à noite. Sempre tirava boas notas (100 no mínimo), o que nos fazia pensar e “botar pra quebrar” para chegar junto. Adorava pesquisar  nas enciclopédias.  Seu sonho era ter dinheiro para nos presentear com a “BARSA” ou “MIRADOR” – as coqueluxe da época, claro que isto nunca aconteceu.
                Não lembro em que ano ela nasceu nem em que ano ela partiu. Gosto de lembrar como ela foi e o que ela significou para todos que a cercavam e a respeitavam pela sua sabedoria. Era quase uma alquimista.
                Ela como mãe era um pouco relaxada, porém “cuidadora”: adoeceu, lá vinha ela com um cházinho, um remédio milagroso, um cataplasma, uma “ventosa” de copo ou uma injeção de Benzetacil daquelas que doía só de mencionar o nome.
Mamãe adorava ler. Lia tudo o que lhe caia às mãos, principalmente bula de remédios. Adorava fotonovela e se aprazia nas páginas da “Grande Hotel”, “Capricho”, “Killing” – uma fotonovela sobre um serial killer que gostava de matar mulheres e usava uma mascara de caveira para esconder o rosto. Gostava também de ler romances de todos os tipos alem e poemas de Castro Alves. Estranhamente ela gostava de ler umas revistas em quadrinho de terror  tipo “Contos da Cripta”, “Drácula” e gibis de toda espécie. Gostava também de livros de bolso pricipalmente “Z Z 7” – um periódico cheio de passagens sensuais sobre uma espiã francesa chamada Brigitte Monfort que sempre resolvia os casos levando os homens para a cama.
                Mamãe passava horas lendo. Lia tanto que às vezes esquecia que precisava cozinhar para quando a filharada voltava faminta da escola querendo comida. Deixava o feijão queimar na panela de pressão, esquecia de lavar a roupa na cacimba e quando lá estava, coarava a roupa  deleitava-se  nos romances açucarados de Barbara Cartland. Vez ou outra um dos pequenos caía dentro da cacimba e era “um Deus nos acuda” para salvar o menino que se afogava naquela água gelada. Claro que no fim sobrava um cascudo ou um puxão de orelha para ter mais cuidado pois, segundo ela “água não tinha cabelo para segurar”.
                Tudo que mamãe lia eu lia também. Algumas vezes escondido. Quando eu ainda não sabia ler, viajava nas figuras e fotos das revistas. Hoje me pego pensando no que se passava pela sua cabeça quando mergulhava naquele universo de amor, sexo, terror e informação. Será que durante a leitura ela fugia daquela miséria e era uma princesa, uma heroína, uma amante voluptuosa.  Provavelmente sim pois é essa a função dos livros.
                Obrigado mãe por ter me ensinado tanto sobre o mundo e a vida. Saudade........

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Começando

Hoje, timidamente, inicio uma fase de minha vida onde mostrarei parte de meu cotidiano (e de outros) bem como experiências, vivências, angústia, alegria, tristeza, desabafo e coisas boas e engraçadas porque ninguém é de ferro.
Nasci!
Na verdade fui jogado no mundo sem dó nem piedade, numa miséria que parecia infinda. Minha mãe dizia que pobre só consegue coisas estudando....e muito. Embora eu não gostassse pois era humilhante ir para a aula nos anos 70 com uma única passagem para ir e oura para voltar levando em consideração que eramos 3 crianças para compartilhar a mesm passagem de ônibus. Muitas vezes o cobrador não permitia (não por cupa dele, mas do patrão que exigia e isso em plena época da ditadura) e a única forma de demonstrar o medo de não cheger em casa era chorar até que alguma alma caridosa se compadecesse e mitigasse nossa dor pagando a passagem com o pouco dinheiro que deveria ter no bolso.
E asssim foi até que hoje sou formado em 2 cursos superiores na tão sonhada Federal.
O medo de não ter dinheiro para voltar me acompanha até hoje, pois mesmo tendo os vale trasporte, sempre carrego em separado em algum canto da bolsa o dinheiro para continuar pagando àquela passagem que me fez chorar tanto.
Meus 2 irmãos (gêmeos) ficaram pelo caminho, construiram e destruiram família, tiveram filhos que não conseguiram também como eles chegar lá. Gostaria de poder conversar de igual para igual com todos os meus irmãos (5 além de mim) mas sou sempre rotulado de intelectual e isso talvez nos afaste um pouco,
Tenho pouco contato com meus irmãos. gostaria de estar um dia junto à eles para relembrar a farofa feita com um único que a pobre Vamp (era o nome de nossa galinha de estimação) esforçadamente punha por dia.
Certa vez cheguei da aula e o almoço era um ensopado de galinha. Chorei muito porque era a Vamp (uma galinha preta com um topote de penas na cabeça) que estava na panela.