domingo, 24 de junho de 2012

Este é sem pensar.
Há tempo não escrevo nada interessante. Tem me faltado saco.
Criatividade até que eu tenho... e muita, mas não tenho conseguido "vomitar" tudo o que eu penso.
Tenho andado num ostracismo voluntário, mas prometo a todos que me seguem nas coisas que costumo escrever que em breve estarei de volta. Com tudo o que todos têm direito.

sábado, 12 de maio de 2012

QUEM VAI PAGAR A PASSAGEM?

         Quando a mulher foi descer do ônibus, falou ao motorista (que também fazia às vezes de cobrador): _ Minha passagem quem vai pagar é o senhor que está sentado lá atrás e que vai saltar um pouco mais adiante. O motorista disse a mulher: _ Tudo bem senhora. E ela saltou displicentemente, mas desejando estar em casa logo para tomar um bom banho e tirar o suor que lhe impregnava a roupa.
         Logo em seguida, um homem, que parecia ser trabalhadores da construção civil ou coisa parecida solicitou ao motorista que parasse para que pudesse saltar. O motorista recebeu o dinheiro  e antes de passar o troco perguntou: _É o senhor que vai pagar a passagem daquela senhora que saltou antes? O homem respondeu de forma irônica: _ Não! Nem mulher eu tenho. A que eu tinha fugiu de casa com uma “machuda”. Foi uma gargalhada geral dentro do ônibus.
         Viva a diversidade e coragem de algumas pessoas que partem em busca da felicidade sem olhar para tras!
CARCARÁ
         Outro dia eu estava assistindo a um programa de entrevista na televisão. A pessoa entrevistada era não menos emblemática Maria Bethânia (que mulher maravilhosa). Como dizia o finado Jorge Amado, ela é um Orixá vivo.
         Junto com os seus músicos, ela iniciou cantando “carcará”, de Chico Buarque. Arrepiei-me todo. E fiquei fascinado com a interpretação da diva.
         Conheço a música e ouço há tanto tempo, mas nunca tinha me dado à importância de prestar atenção na letra. Ficava mais atento a voz maravilhosa de Bethânia.
         Recorri à internet para ter acesso à poesia do Chico Buarque e fiquei meditando sobre essa ave lindíssima que habita os sertões desse Brasil. Vi fotos também (magnífico animal, magistralmente “clicado” por algum fotógrafo da National Geografic).
         Na poesia, a ave pareceu-me demonizada e má pela violência com que faz as suas vítimas, mesmo em situação de escassez total de alimento.
         O carcará no caso é um herói, um paladino no processo de mitigação da fome. E, diferente de seus conterrâneos humanos, não abandona a sua terra nos momentos de infortúnio quando a seca cruel assola aquelas plagas tórrida.
         Penso que no momento político que este país passava, o Chico não quis fazer críticas costumeiras e “maquiladas” sobre a situação, mas apenas falar da ave em questão, haja vista, num dos versos, o autor comenta que o carcará tem mais coragem do que homem.

segunda-feira, 19 de março de 2012

ABSOLUTO

        Quisera eu ter poderes para ensinar alguém a ser um ser, assim...
        Assim... Completamente um SER.



            Para você meu querido e indeciso amigo que eu amo tanto, que mora em Mariópolis (PR), mas que vive eternamente no meu coração.

sábado, 17 de março de 2012

A TEIA DA ARANHA E O FASCINIO DA REDE
            Os gregos antigos eram ótimos (porque os de hoje só dão vexame). Para tudo tinham uma explicação de origem divina.
            Conta a lenda que Atena, entre os inúmeros atributos divinos, era ótima tecelã. Acontece que existia uma mortal chamada Aracne que tecia “divinamente”, provocando ira e ciúmes na referida deusa. Atena resolveu dar um castigo na pobre mortal que se sobressaia na tarefa de tecer. E a deusa lançou sobre a pobre moça uma maldição: _ Passarás tuas noites tecendo para o teu trabalho ser destruído pelas mulheres na manhã seguinte. E a pobre foi transformada em uma aranha.
            Manuel acordou tarde naquele dia. Era seu aniversário e estava completando 30 anos. Esticou os dedos dos pés que estalaram involuntariamente fazendo barulho no silêncio do quarto que fedia a mofo de tanto permanecer com as janelas fechadas. Estava de férias, pois era o recesso na escola secundária em que lecionava Português.
            A mãe, uma senhora alegre de 72 anos bateu à porta para avisar que o café estava na mesa. Manuel abriu a porta e foi abraçado pela velha senhora que lhe parabenizou por mais uma passagem de ano e silenciosamente agradeceu à Deus por ainda ter aquele filho junto dela (os outros seis casaram, mudaram e não deixaram endereço) para lhe amparar na velhice.
            Manuel nascera de uma aventura de sua mãe com o taberneiro da esquina em uma festa na qual todos beberam muito, o que causou revolta no resto da família. Ela enviuvara fazia três anos e se entregou àquele homem ali mesmo, na rua escorada no poste sem lâmpada. Ele quis assumir o filho, mas ela não aceitou, criando o menino sozinha. Os outros filhos já eram adultos ou adolescentes quando Manuel nasceu.
            Foi um menino bom, estudioso, educado e dedicado à mãe, que era tudo para ele e vice e versa. Os outros filhos foram se formando, casando e indo embora. Só Manuel ficou. Talvez em agradecimento pelo fato de ser tão enjeitado pelos outros irmãos em virtude de sua condição: O filho do poste sem lâmpada (era como os irmãos lhe chamavam às escondidas).
            E assim foi crescendo. Nunca levou namorada em casa e ninguém sabia se ele namorava (muitos achavam estranho aquilo e murmuravam pelos cantos que ele era gay).
            Manuel passava o tempo trancado em seu quarto lendo ou estudando. Era bem verdade que passava a maior parte desse tempo se masturbando freneticamente. Sexo com mulheres, apenas três vezes por insistência de um amigo. Escolhia sempre a puta mais sebosa e feia da zona. Depois, tomava um banho com sabão “Cotia” para se livrar dos “germes” que a mulher possivelmente lhe passara.  Quando era beijado por alguma menina da escola, corria para escovar os dentes com nojo. E assim foi se fazendo homem.
            Quando foi estudar o segundo grau, a mãe lhe presenteara com um computador. Ficou fascinado com as possibilidades que a máquina proporcionava, mas o que mais lhe chamou a atenção foi poder se relacionar com outras pessoas sem tocá-las. Namorava, aprendia, conhecia e fodia. Inscreveu-se num site de relacionamentos para homens e começou a navegar no universo paralelo da veadagem virtual.
            Escolheu o perfil do par ideal e lá foi ele na busca pela sua cara metade. È bem verdade que todos os homens disponíveis eram gordos, barrigudos, com nível superior completo (alguns muito pós-graduados), geralmente professores e funcionários públicos moradores de cidades distantes. A maioria dos candidatos mentia sobre seu aspecto físico.
            Manuel interessou-se por um homem de 44 anos, que na verdade tinha 56, morador de Curitiba que pareceu ser muito agradável. Passavam horas diante do computador teclando juras de amor para o outro até que ele resolveu conhecer o namorado virtual.
            Tirou uma licença de dez dias e foi ao encontro do pretenso amado. O sujeito que foi lhe encontrar no aeroporto era muito diferente do das fotos enviadas por e-mail. A situação foi um tanto constrangedora, mas ele já estava lá mesmo... Abraçou o amigo que agora era real e lhe um beijo no rosto em pleno saguão do aeroporto. Seria um escândalo, já que o amigo era um senhor casado e não assumido.
            Manuel ficou puto com aquela situação e pensou em como aquele veado velho e filho da puta lhe enganara o tempo todo. Foram para o hotel que o hospedara e quase foderam ali mesmo no elevador. Mesmo decepcionado com o aspecto do homem, Manuel fodeu aquele sujeito como nunca havia fodido na vida. O cara era praticamente um profissional na arte de dar prazer e Manuel gozou como nunca até seus testículos ficarem doloridos.
            Após horas de sexo, Osvaldo (esse era o nome do veado mentiroso) disse a Manuel que não poderia mais se vê-lo porque ele tinha família e que jamais assumiria a sua homossexualidade e que nunca sairia de sua cidade para uma aventura amorosa. Manuel, encolerizado deu um murro na cara do sujeito que lhe quebrou o nariz e quatro dentes. O caso foi parar na polícia. Os funcionários do hotel que chamaram a viatura. Lá, Manuel resolvera desmascarar o veado enrustido e o caso foi parar nas páginas do Diário Curitibano e o que era para ser prazeroso se transformou em um pesadelo. Esclarecido o fato, vingado da pilantragem do outro, Manuel voltou pra casa. Triste. Muito triste mesmo.
            Resolveu se abrir com a velha mãe e chorou muito. A mãe disse ao filho que entendia e que se solidarizava com ele, mesmo preferindo que ele casasse com uma mulher descente e lhe desse ao menos um neto para querer bem, pois os outros 16 eram praticamente desconhecidos para a pobre senhora.
            Manuel não conseguiu mais fazer nada. Os alunos ainda lhe eram uma distração, mas virou motivo de zombaria entre eles porque a experiência dele em Curitiba foi para nos tele jornais da Rede Globo em horário nobre, informados pela Fátima Bernard (HOMESSEXUAL REVOLTADO ESPANCA AMANTE EM HOTEL DE CURITIBA). A bebida se tornou sua companheira e amante.
            Parou de se conectar a rede e de se relacionar com o mundo. O computador voltou a ser apenas um instrumento de trabalho.

domingo, 11 de março de 2012

O NAUFRÁGIO

                O navio estava afundando e o comandante avisou que havia poucos botes salva-vidas.
                Só entrariam nos botes as pessoas que fossem inteligentes.  Todos se apavoraram com medo de serem burros ou saberem pouco.
                Foi quando um senhor de roupas muito simples gritou do fundo: _Comandante, não sou apedeuta, mas me recuso a participar desse sorteio maluco. Acho que todos devem entrar nos botes. E completou: _ O senhor é apedeuta?
                O comandante pensou, pensou e pensou e respondeu achando que isso era uma coisa importante: _Sou apedeuta, sim.
                O homem simples disse então: Acho que o senhor não pode entrar no bote, pois apedeuta é o mesmo que burro.   E com seus botões o homem disse pra si mesmo: _E sabia que isso ia servir para alguma coisa, pois cedo havia encontrado o significado dessa palavra numa cruzadinha de jornal.

Este texto surgiu da ideia para um dever de casa de um grande amigo meu que mora em Brasília – DF
Beijão Jean

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

UM DIA PRA NÃO SER COMEMORADO

                Rosely era uma moça esquisita. Falava pouco e se relacionava melhor com os livros do que com pessoas. Era muito estudiosa e cursava o quinto período em Artes numa conhecida universidade da cidade em que morava.
                Eram nove horas da manhã quando ela entrou no trem. Estava com a alma assolada por uma tristeza tão profunda e inexplicavelmente sem motivos que chegava lhe trazer lágrimas aos olhos que brilhavam por traz dos óculos. Olhou o céu de um azul profundo e esmaecido, salpicado de nuvens plúmbeas que lhe pareceu uma pintura de Paul Klee.              
                A visão do céu deixou-lhe mais triste ainda. Sentou-se de frente para uma janela que lhe permitia ver o casario que passava rapidamente conforme o trem corria. Deixou-se levar em devaneios, pensando numa solução para o problema financeiro que a família passava.
                Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco. O barulho da roda de metal da composição contra os trilhos era ensurdecedor. Ela fechou os olhos e pensou: Ano que vem já poderei ministrar aulas pra sair dessa miséria em que nós vivemos. A bolsa de pesquisa que conquistara só dava pra pagar as passagens da condução e suas refeições no R.U.
                Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco.  E o trem chacoalhava de um lado para o outro.  Olhou pra uma senhora gorda que estava sentada a sua frente que não parava de mastigar amendoins ransentos comprados na entrada da estação.  Próximo dali, um negro lia um jornal de quinta categoria que noticiava os últimos assassinatos bárbaros ocorridos na cidade.
                Rosely olhou para o negro com desprezo, pois o mesmo rebolou o jornal pela janela sem se preocupar com um cartaz que dizia: Lugar de lixo e no lixo. Ela pensou com seus botões: Que sujeito porco! Imagino a merda que é a casa dele.  Do outro lado um rapaz de cabelo sarará ouvia alto em seu celular algo que parecia ser uma música, mas era um lixo comercial produzido por uma pseudo-cantora chamada Taty Quebra Barraco e que fazia grande sucesso entre os jovens pobres e sem educação da periferia.
                A tristeza consumia mais ainda o íntimo de sua alma.  Ela não entendia o porquê daquela dor tão lancinante.  Olhou distraída pela janela e observou as casas que margeavam a via férrea. Casas com cores tão vagas e na maioria das vezes nem pintura tinham. Eram paredes de tijolo nu esverdeado pelo musgo que crescia abundante naquela época do ano.
                Tá-taco-tá-taco- tá-taco-tá-taco.  E o trem continuava seu triste trajeto.  Ainda faltavam doze estações até chegar a seu destino.  De repente ouviu-se um barulho de janelas sendo estilhaçadas. Eram pedras atiradas por moleques maus elementos, moradores das margens da ferrovia.  Rosely sentiu um choque surdo e pôs a mão sobre a testa e percebeu que todos lhe olhavam apavorados.  Olhou sua mão e percebeu sangue entre seus dedos.  Seus livros caíram no chão e Rosely morreu ali mesmo vítima de uma bala perdida.
                Seus problemas haviam terminado.