segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

UM DIA PRA NÃO SER COMEMORADO

                Rosely era uma moça esquisita. Falava pouco e se relacionava melhor com os livros do que com pessoas. Era muito estudiosa e cursava o quinto período em Artes numa conhecida universidade da cidade em que morava.
                Eram nove horas da manhã quando ela entrou no trem. Estava com a alma assolada por uma tristeza tão profunda e inexplicavelmente sem motivos que chegava lhe trazer lágrimas aos olhos que brilhavam por traz dos óculos. Olhou o céu de um azul profundo e esmaecido, salpicado de nuvens plúmbeas que lhe pareceu uma pintura de Paul Klee.              
                A visão do céu deixou-lhe mais triste ainda. Sentou-se de frente para uma janela que lhe permitia ver o casario que passava rapidamente conforme o trem corria. Deixou-se levar em devaneios, pensando numa solução para o problema financeiro que a família passava.
                Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco. O barulho da roda de metal da composição contra os trilhos era ensurdecedor. Ela fechou os olhos e pensou: Ano que vem já poderei ministrar aulas pra sair dessa miséria em que nós vivemos. A bolsa de pesquisa que conquistara só dava pra pagar as passagens da condução e suas refeições no R.U.
                Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco.  E o trem chacoalhava de um lado para o outro.  Olhou pra uma senhora gorda que estava sentada a sua frente que não parava de mastigar amendoins ransentos comprados na entrada da estação.  Próximo dali, um negro lia um jornal de quinta categoria que noticiava os últimos assassinatos bárbaros ocorridos na cidade.
                Rosely olhou para o negro com desprezo, pois o mesmo rebolou o jornal pela janela sem se preocupar com um cartaz que dizia: Lugar de lixo e no lixo. Ela pensou com seus botões: Que sujeito porco! Imagino a merda que é a casa dele.  Do outro lado um rapaz de cabelo sarará ouvia alto em seu celular algo que parecia ser uma música, mas era um lixo comercial produzido por uma pseudo-cantora chamada Taty Quebra Barraco e que fazia grande sucesso entre os jovens pobres e sem educação da periferia.
                A tristeza consumia mais ainda o íntimo de sua alma.  Ela não entendia o porquê daquela dor tão lancinante.  Olhou distraída pela janela e observou as casas que margeavam a via férrea. Casas com cores tão vagas e na maioria das vezes nem pintura tinham. Eram paredes de tijolo nu esverdeado pelo musgo que crescia abundante naquela época do ano.
                Tá-taco-tá-taco- tá-taco-tá-taco.  E o trem continuava seu triste trajeto.  Ainda faltavam doze estações até chegar a seu destino.  De repente ouviu-se um barulho de janelas sendo estilhaçadas. Eram pedras atiradas por moleques maus elementos, moradores das margens da ferrovia.  Rosely sentiu um choque surdo e pôs a mão sobre a testa e percebeu que todos lhe olhavam apavorados.  Olhou sua mão e percebeu sangue entre seus dedos.  Seus livros caíram no chão e Rosely morreu ali mesmo vítima de uma bala perdida.
                Seus problemas haviam terminado.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

NAS NUVENS
         Voar é com os pássaros (alguns não voam como a ema, o emu, o avestruz e o extinto dodô). Mas o homem vai e inventa o avião que nos proporciona este prazer que era exclusividade das aves.
            Antigamente viajar de avião era chique. Compravam-se roupas novas, ternos, vestidos caros e malas de couro legítimo e era o máximo. Motivo de lembranças orgulhosas e souvenires discretamente roubados das aeronaves. Hoje as pessoas embarcam de sandálias havaianas e sacolas do Carrefour.
            Estava eu indo ao sudeste maravilha para uma curta temporada. O voo era noturno, na classe econômica pra variar (acho que só tem vagas nessa classe agora, pois não vejo assentos diferenciados ultimamente, talvez nos voos internacionais) e havia muitos lugares vazios, o que achei ótimo porque tem menos gente pra peidar.
            Neste dito voo havia nove gordos (cinco homens e quatro mulheres). As gordas são mais discretas e fazem quase de tudo pra passarem despercebidas. Mas os gordos homens reclamam do tamanho da cadeira, que os assentos do “conforto” solicitado na hora do despacho da bagagem pra o agente não são confortáveis, como se a companhia de aviação carregasse a culpa pela sua obesidade e descuido.
            Escolhi previamente um assento próximo à janela a fim de evitar ter que levantar para dar passagem a alguém que insistisse em mijar naquele sanitário minúsculo (eu mijo antes de embarcar para não ter que passar por esse constrangimento, pois pela cabeça dos passageiros passa o pensamento: Lá vai mais um que não consegue segurar a bexiga) ou quer apenas matar a curiosidade.
            Na cadeira do corredor (no dito assento de “conforto”) sentou um gordo. Assim que o avião decolou, passou uma comissária oferecendo caramelos e o homem encheu a mão com pelo menos doze balas (eu peguei só duas de propósito, o que deixou o gordo um pouco constrangido). Eis que não mais de quinze minutos, o gordo sacou de dentro de uma carteira tipo “capanga” um X-salada que comeu rapidamente escondendo-se de cabeça baixa. Meia hora depois tirou, não sei como cabia, outro X-salada da mesma “capanga” e comeu também da mesma forma.
            Iniciou-se então serviço de bordo. O dito senhor pegou três kits e dois copos de refrigerante e um de água que distribuiu em sua mesinha e na do assento entre mim e ele que estava vazio. Após essa orgia pantagruélica, ele recostou-se e dormiu. O homem roncava tanto que parecia um porco. E peidava também. E eu puto querendo dar porrada naquele sujeito nojento e  meter uma rolha no seu cu para evitar a podridão que dele exalava.
            Até que um homem que estava sentado na poltrona de trás (que eu tinha visto tomando umas latinhas de cerveja antes de embarcar) disse: Puta que o pariu! Quem é esse filho da puta que tá cagando aqui que eu quero cobrir de porrada? Porra! E levantou-se ameaçadoramente. Acho que não era só o “meu gordo” que peidava, pois ficou um silencio mortal. Foi quando eu me virei para ele (o bêbado que reclamava) e disse: Eu sei quem foi, mas só vou te falar quando terminar essa tortura de viagem. E os três gordos que estavam próximos (porque era um sentado sozinho na fileira à minha frente, um ao meu lado e outro na fileira logo a seguir, ao lado do homem que fez o brado de protesto contra os peidões) ficaram em estado contemplativo como quem assume a culpa silenciosamente.
            É claro que não falei nada depois. Só queria saber de sair dali o mais rápido possível e aproveitar meu passeio pela Cidade Maravilhosa

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

No taxi

                Estava eu em uma curta temporada no Rio de Janeiro. Era sexta-feira e eu entrei em contato com um motorista, muito bem recomendado por minha sobrinha pela honestidade e profissionalismo para que o mesmo fosse me buscar no local em que me hospedei e me levar ao aeroporto. Conforme combinamos, liguei novamente no sábado à noite para confirmar o endereço e a corrida.
                Falei ao motorista, Marley era seu nome, que gostaria de chegar às 10 horas e trinta minutos no aeroporto para evitar os transtornos característicos nos aeroportos grandes.
                Às 9 horas da manhã já estava o motorista na porta do apartamento para buscar-me. _ Cheguei mais cedo porque o senhor poderia querer ir a algum lugar antes de chegar ao aeroporto....  Já que o senhor chegou, vamos, pois qualquer hora é hora para mim que já quero estar na minha. E assim ele pegou minha bagagem e eu me despedi do amigo que me hospedou e fomos para o carro.
                Antes de chegar ao túnel de acesso para Botafogo ele perguntou-me se tinha gostado do Rio entre outras coisas. Respondi que já conhecia a cidade e que nada era novidade para mim. Então ele disse que ia me mostrar algo do Rio que jamais eu iria esquecer e sacou o pau duro de dentro da calça e me mostrou.
                A situação foi muito engraçada, pois olhei sem interesse e lhe disse que eu queria era ir para a minha casa. Ele ficou todo errado e guardou o pau. Notei o constrangimento dele e quebrei o gelo dizendo que não tinha ficado ofendido com o ocorrido. Ele comentou que achava que eu queria algo, pois liguei duas vezes pra confirmar. Respondi que eu era muito ansioso com horário e ficou por isso mesmo.
                Agradeci, paguei a corrida e fui para o saguão de embarque.
                Acontece cada coisa com a gente neste mundo.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

FRASE DE MURO


 Se pra Deus tudo é luz 
e para o Diabo trevas,
por que acendemos velas?



            Esta frase pitoresca eu encontrei escrita em muro em Gramacho no Rio de Janeiro durante minhas andanças em busca do passado.