UM DIA PRA NÃO SER COMEMORADO
Rosely era uma moça esquisita. Falava pouco e se relacionava melhor com os livros do que com pessoas. Era muito estudiosa e cursava o quinto período em Artes numa conhecida universidade da cidade em que morava.
Eram nove horas da manhã quando ela entrou no trem. Estava com a alma assolada por uma tristeza tão profunda e inexplicavelmente sem motivos que chegava lhe trazer lágrimas aos olhos que brilhavam por traz dos óculos. Olhou o céu de um azul profundo e esmaecido, salpicado de nuvens plúmbeas que lhe pareceu uma pintura de Paul Klee.
A visão do céu deixou-lhe mais triste ainda. Sentou-se de frente para uma janela que lhe permitia ver o casario que passava rapidamente conforme o trem corria. Deixou-se levar em devaneios, pensando numa solução para o problema financeiro que a família passava.
Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco. O barulho da roda de metal da composição contra os trilhos era ensurdecedor. Ela fechou os olhos e pensou: Ano que vem já poderei ministrar aulas pra sair dessa miséria em que nós vivemos. A bolsa de pesquisa que conquistara só dava pra pagar as passagens da condução e suas refeições no R.U.
Tá-taco-tá-taco-tá-taco-tá-taco. E o trem chacoalhava de um lado para o outro. Olhou pra uma senhora gorda que estava sentada a sua frente que não parava de mastigar amendoins ransentos comprados na entrada da estação. Próximo dali, um negro lia um jornal de quinta categoria que noticiava os últimos assassinatos bárbaros ocorridos na cidade.
Rosely olhou para o negro com desprezo, pois o mesmo rebolou o jornal pela janela sem se preocupar com um cartaz que dizia: Lugar de lixo e no lixo. Ela pensou com seus botões: Que sujeito porco! Imagino a merda que é a casa dele. Do outro lado um rapaz de cabelo sarará ouvia alto em seu celular algo que parecia ser uma música, mas era um lixo comercial produzido por uma pseudo-cantora chamada Taty Quebra Barraco e que fazia grande sucesso entre os jovens pobres e sem educação da periferia.
A tristeza consumia mais ainda o íntimo de sua alma. Ela não entendia o porquê daquela dor tão lancinante. Olhou distraída pela janela e observou as casas que margeavam a via férrea. Casas com cores tão vagas e na maioria das vezes nem pintura tinham. Eram paredes de tijolo nu esverdeado pelo musgo que crescia abundante naquela época do ano.
Tá-taco-tá-taco- tá-taco-tá-taco. E o trem continuava seu triste trajeto. Ainda faltavam doze estações até chegar a seu destino. De repente ouviu-se um barulho de janelas sendo estilhaçadas. Eram pedras atiradas por moleques maus elementos, moradores das margens da ferrovia. Rosely sentiu um choque surdo e pôs a mão sobre a testa e percebeu que todos lhe olhavam apavorados. Olhou sua mão e percebeu sangue entre seus dedos. Seus livros caíram no chão e Rosely morreu ali mesmo vítima de uma bala perdida.
Seus problemas haviam terminado.



