NAS NUVENS
Voar é com os pássaros (alguns não voam como a ema, o emu, o avestruz e o extinto dodô). Mas o homem vai e inventa o avião que nos proporciona este prazer que era exclusividade das aves.
Antigamente viajar de avião era chique. Compravam-se roupas novas, ternos, vestidos caros e malas de couro legítimo e era o máximo. Motivo de lembranças orgulhosas e souvenires discretamente roubados das aeronaves. Hoje as pessoas embarcam de sandálias havaianas e sacolas do Carrefour.
Estava eu indo ao sudeste maravilha para uma curta temporada. O voo era noturno, na classe econômica pra variar (acho que só tem vagas nessa classe agora, pois não vejo assentos diferenciados ultimamente, talvez nos voos internacionais) e havia muitos lugares vazios, o que achei ótimo porque tem menos gente pra peidar.
Neste dito voo havia nove gordos (cinco homens e quatro mulheres). As gordas são mais discretas e fazem quase de tudo pra passarem despercebidas. Mas os gordos homens reclamam do tamanho da cadeira, que os assentos do “conforto” solicitado na hora do despacho da bagagem pra o agente não são confortáveis, como se a companhia de aviação carregasse a culpa pela sua obesidade e descuido.
Escolhi previamente um assento próximo à janela a fim de evitar ter que levantar para dar passagem a alguém que insistisse em mijar naquele sanitário minúsculo (eu mijo antes de embarcar para não ter que passar por esse constrangimento, pois pela cabeça dos passageiros passa o pensamento: Lá vai mais um que não consegue segurar a bexiga) ou quer apenas matar a curiosidade.
Na cadeira do corredor (no dito assento de “conforto”) sentou um gordo. Assim que o avião decolou, passou uma comissária oferecendo caramelos e o homem encheu a mão com pelo menos doze balas (eu peguei só duas de propósito, o que deixou o gordo um pouco constrangido). Eis que não mais de quinze minutos, o gordo sacou de dentro de uma carteira tipo “capanga” um X-salada que comeu rapidamente escondendo-se de cabeça baixa. Meia hora depois tirou, não sei como cabia, outro X-salada da mesma “capanga” e comeu também da mesma forma.
Iniciou-se então serviço de bordo. O dito senhor pegou três kits e dois copos de refrigerante e um de água que distribuiu em sua mesinha e na do assento entre mim e ele que estava vazio. Após essa orgia pantagruélica, ele recostou-se e dormiu. O homem roncava tanto que parecia um porco. E peidava também. E eu puto querendo dar porrada naquele sujeito nojento e meter uma rolha no seu cu para evitar a podridão que dele exalava.
Até que um homem que estava sentado na poltrona de trás (que eu tinha visto tomando umas latinhas de cerveja antes de embarcar) disse: Puta que o pariu! Quem é esse filho da puta que tá cagando aqui que eu quero cobrir de porrada? Porra! E levantou-se ameaçadoramente. Acho que não era só o “meu gordo” que peidava, pois ficou um silencio mortal. Foi quando eu me virei para ele (o bêbado que reclamava) e disse: Eu sei quem foi, mas só vou te falar quando terminar essa tortura de viagem. E os três gordos que estavam próximos (porque era um sentado sozinho na fileira à minha frente, um ao meu lado e outro na fileira logo a seguir, ao lado do homem que fez o brado de protesto contra os peidões) ficaram em estado contemplativo como quem assume a culpa silenciosamente.
É claro que não falei nada depois. Só queria saber de sair dali o mais rápido possível e aproveitar meu passeio pela Cidade Maravilhosa

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