quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CUSPIR PARA CIMA

                Às vezes me pego pensando nas voltas que o mundo dá e o como é bom ver como é o encontro na curva da vida.
                A senhora X (para não ferir ninguém) sempre foi chefe de setor administrativo de uma
Divisão de uma Secretaria Municipal de Saúde.  Lá era a “papa”. Sabia de tudo sobre seu trabalho (pelo menos era o que ela achava) e gostava, ou quem sabe, em virtude de seu “poder”, de criticar e menosprezar o trabalho de outros técnicos administrativos.  De vez em quando ela chegava a rasgar alguns relatórios laboriosos e verbalizar que o técnico era um burro e que não sabia fazer o trabalho.
                Os técnicos já sabendo da “pavulagem” da senhora X refaziam o relatório, mas sem modificar nada e ela, no auge de sua autoridade dizia: agora está bom embora ainda tenha alguns erros e não da tempo de arrumar novamente com o risco de chegar atrasado nos setores de controle. 
Ela era “imexível” por força política ou sei lá o quê.
                Foram anos de humilhação que aquela equipe passou sob as unhas da referida senhora.  O fato é que ela destilava sua arrogância e “imexibilidade” também em seu próprio setor de trabalho: um ninho de cobras como acontece na maioria das instituições publicas. Tanto ela aprontou por lá que foi praticamente expulsa de sua unidade de origem e quase exonerada por má conduta profissional.  Ela tinha transformado seu setor na “área de serviço de sua casa” tanto era seus mandos e desmandos.
                Nenhum chefe de setor queria aquela senhora trabalhando junto, pois sabiam o que ela aprontava em virtude de sua síndrome de poder absoluto.
                O ditado proferido por nossos avôs: não cuspa para cima ou o cuspe pode cair na sua cara. Ela foi designada e aceita para prestar serviço no local onde trabalhavam as pessoas que ela mais humilhou e rasgou seus relatórios. Foi bem recebida porque naquele lugar as pessoas eram alegres e educadas e cumpridoras de seus deveres (algumas).
                Foi aí que perceberam que ela era uma fraude. Pois não sabia nem manejar um computador e vivia pedindo auxilio das pessoas que tanto desprezou.  Questionada por um funcionário que não tinha papas na língua sobre o fato de não saber o fazer técnico ela respondeu: Eu não se
i por que sempre fui chefe.
                Tenha dó, né? Ainda bem que as coisas ainda podem ser mudadas.
 Há, há, há!  

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

NO CONSULTÓRIO
                Você alguma vez já consultou um psicólogo?  Prepare-se porque a primeira vez será sempre uma experiência no mínimo constrangedora e angustiante.
                No meu fazer terapêutico, ainda acadêmico no “CAPSI” (Centro de Atendimento Psicoterápico) tive a oportunidade de atender a uma moça, encaminhada por outra colega de sala de aula que não podia atendê-la por questões éticas. Ela estava visivelmente angustiada e aparentemente com medo.  Apresentei-me no intuito de estabelecer o rapport sem fazer a pergunta erradamente  clássica: Tudo bem? (Ora, se a pessoa vai buscar ajuda com terapeuta é porque não está bem, não é?).  Limitei-me a perguntar o que lhe levou até ali.  Ela não sabia muito bem, mas falou que andava muito triste e que não conseguia dormir nem comer há muito (embora fosse um pouco obesa).
                Ela falou muito na falta de dinheiro e no relacionamento difícil com a mãe evangélica com quem não mantinha diálogo. Falou também que uma “pessoa” lhe tomava praticamente todo o seu salário.
                Quando ela mencionou “pessoa” logo percebi que havia ali, uma questão de homossexualismo gritante e que sua tristeza era punitiva porque, conforme ela proferia o seu discurso, não aceitava sua própria condição.  Ela estava apaixonada platonicamente por uma mulher que morava em outra cidade e vivia lhe pedindo dinheiro para se manter por lá. E eu, que pensava que essa pilantragem só acontecia entre “bofes” e “bichas” me espantei em saber que existia esse tipo de relação entre as “homes” e suas mulheres.
                O interessante de tudo, que embora a coisa fosse explicita, ela nunca havia estado com outra mulher. Nunca mamou em outro seio que não fosse o de sua mãe (quando bebê, é claro) ou tocado outra vagina que não fosse a sua durante as horas de masturbação infindas.
                Quando lhe falei que seu sofrimento era proveniente do fato de não aceitar a sua própria homossexualidade, ela ficou lívida (acho que ninguém havia sido tão direto com ela). Tinha que ser assim pois só havia aquela oportunidade de mitigar sua dor: atacando o inimigo – o seu próprio preconceito.  Nós não nos veríamos mais depois daquela sessão, então a coisa tinha que ser imediatista e terapêutica ao mesmo tempo.
                Era noite e sua imagem estava refletida na janela do consultório improvisado. Não sei se foi técnica ou intuição (acho que todo psicólogo deve ser intuitivo também) mas falei-lhe assim:  Olhe para a janela. O que você vê? A minha imagem refletida, disse ela.  Então agora imagine que  deve sofrer é aquela lá na janela é a mulher que sofre e essa aí (apontei em sua direção)e  é você que deve viver e ser feliz com a sua escolha. 
                Terminamos a sessão com um abraço forte. Ela me agradeceu e nunca mais a vi.
                Algumas semanas depois, minha colega que encaminhou a moça perguntou o que eu havia feito com ela pois a mesma estava tão feliz que parecia ter resolvido toda a sua vida. Respondi que nada além de dar a ela a oportunidade de ser ouvida e compreendida
HAIKAI ENTOMOLÓGICO


E
CONTRA
UM
CÉU
CINZENTO
VOA
UMA
BORBOLETA
LILÁS

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

AS LUZES DA LOUCURA

                No hospício, podemos observar muitas coisas interessantes e delas tirar muito proveito para usar na nossa vida de “normalidade”.
                Meu sonho, e acho que de muito psicólogos e psiquiatras e poder enxergar a alucinação do paciente em crise ou simplesmente delirando, ou seja, vivenciar de todas as formas a alucinação.
                Minha primeira reação quando adentrei no hospício foi de medo.  Um medo que esfriava até a espinha. O maior choque foi ver aqueles seres que me pareceram humanos, em sua maioria nus em pelo ou com seios e genitálias à mostra.  Era constrangedor para mim, acostumado a ditadura judaico – cristã de que a nudez é pecado.  Talvez fossem meus próprios conteúdos reprimidos que me fizessem desviar os olhos daquela cena feia e triste: pessoas andando à esmo como zumbis completamente embotados pelo excesso de drogas antipsicóticas, muitas vezes em dosagem muito superior à que o próprio organismo agüentaria.
                Os dedos queimados pelas bitucas de cigarros tecidos com  tabaco barato em jornal ou revistas retirados das T.Os. (terapia ocupacional) com atividades (que a meu ver) não serviam para  nada. Os olhos perdidos fitavam não sei o quê e não sei para onde e  o  forte odor de mijo e merda incomodavam meu olfato e eu, mesmo com  todo meu “aparato tecnológico” de psicólogo, não me deixava aproximar muito dessas pobres criaturas abandonadas por Deus e a sociedade.
                Passaram semanas e finalmente perdi o medo e o asco. Rapidamente ganhei a confiança de alguns que já me conheciam pelo nome (gravei o nome de poucos pois sou ruim de memória) e geralmente já aguardavam anciosos pela visita.  Com o tempo, ninguém estava mais nu. Para mim estavam agora coberto da mais fina seda que existe no mundo porque agora eu os via como gente, que não fedia mais,. embora minada de tudo que um país descente podesse dar a esses cidadãos.  Naquele momento nós buscávamos para aquele povo  algo muito simples: dignidade.
                Dentre esses pacientes havia um que criei um vínculo que me pareceu muito saudável. Sempre que eu chegava,  ele me procurava. Era muito jovem e desenvolveu a esquizofrenia adolescente ainda. Soube que ele fora encontrado acorrentado dentro de uma casa de cachorro e, segundo ele mesmo era porque “aprontava muito” e para não apanhar dos vizinhos tinha que ficar acorrentado. Ele era um dos  interno mais “perigosos” do hospício pois já havia dado porrada em muitos enfermeiros e quebrado braços e narizes de outros internos. Ele apanhava muito e toda noite era estuprado pelos internos tarados que lá permaneciam.
                Uma  manhã eu cheguei para trabalhar e lá veio ele: Com os punhos em riste pronto para me bater (gelei!). Os seguranças do hospital logo ficaram de prontidão mas pedi que eles se afastassem. Perguntei: Por quê você quer me bater? Eu não lhe fiz nada? Ele disse: Vou te bater porque você é um safado! E partiu para cima. Quando ele chegou mais perto eu reuni toda a coragem do mundo e falei: Você quer bater numa das poucas pessoas que lhe dão atenção e carinho aqui? Ele parou, olhou-me fixamente e de repente me abraçou e começou a chorar como uma criança. Me desculpa, ele repetia. Me desculpa eu não sabia que era você.
                Essa lição eu guardo pois, para exercer uma profissão que envolve a loucura você tem que se despir e ficar nu como eles, viver como eles para obter um resultado como o descrito acima.  Você tem acima de tudo criar um vinculo saudável com todos que lhe cercam e encontrar com isso a sua satisfação pessoal.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O ENCONTRO
Sabe aquelas pessoas  incrível e despretenciosamente belas, tanto por dentro quanto por fora? Ele era assim. Dono de um par de olhos castanho – amarelado, emoldurado por cílios enormes e espessos que cativava a quem quer lhe olhasse com profundidade.
Nós nos conhecemos na faculdade e tínhamos idades bem diferentes.  Nossa turma era eclética: tinha alunos com idade que variava entre 17 e 40 anos, embora poucos soubessem disso (quase não falávamos dessas coisas desconcertantes).
Ele tinha um corpo perfeito (era jogador de futebol profissional) e nós ou estávamos abaixo ou muito acima do peso ideal.  Ele não se importava com isso. Conversava com todos e ria com todos sem distinção nenhuma (algumas pessoas de nossa turma tinham o nariz em pé ou se achavam melhores e não falavam com todos – é claro que isso acabou com o tempo).
Outro dia, depois de muitos anos ele encontrou-me no supermercado. Deu-me  um abraço como era seu costume e conversamos longamente sobre nossos colegas e sobre trabalho. Seu corpo já não era mais o mesmo, mas ainda continuava inteiro. Mostrou-me a foto de seu filho e disse que estava passando ali por acaso e resolveu comprar algumas coisas que estavam-lhe faltando em casa.
Fiquei um tempo falando com e senti vontade de pedir o numero de seu telefone para conversarmos outra hora mas barrei numa coisa muito chata: por mais que tentasse não lembrei o nome dele e fiquei me martirizando por isso.  Ele é uma daquelas pessoas boas de se ver mas fiquei com vergonha de lhe perguntar o nome. Porra! Que merda! Como posso esquecer uma coisa assim..... Aliás, esqueço tudo pra variar inclusive o que tinha me levado àquele supermercado.  Foi quando parei entre as gôndolas e fiquei exercitando a memória com os dedos nas têmporas. Finalmente seu nome apareceu em minha memória: CÉLIO. Corri para ver se ainda lhe encontrava mas ele já tinha ido embora infelizmente. Seria legal receber aquela pessoa em minha casa, relembrar as coisas boas que junto passamos, nossos sonhos não realizados e realizados, mas infelizmente fui traído pela memória. Tenho o pressentimento que ele esquecera meu nome também. Agora já é tarde. O que me vale é que Manaus é ovo e aqui até as pedras se encontram.
Vou lhe encontrar de novo em algum lugar Célio, e prometo dessa vez não esquecer seu nome.