NO CONSULTÓRIO
Você alguma vez já consultou um psicólogo? Prepare-se porque a primeira vez será sempre uma experiência no mínimo constrangedora e angustiante.
No meu fazer terapêutico, ainda acadêmico no “CAPSI” (Centro de Atendimento Psicoterápico) tive a oportunidade de atender a uma moça, encaminhada por outra colega de sala de aula que não podia atendê-la por questões éticas. Ela estava visivelmente angustiada e aparentemente com medo. Apresentei-me no intuito de estabelecer o rapport sem fazer a pergunta erradamente clássica: Tudo bem? (Ora, se a pessoa vai buscar ajuda com terapeuta é porque não está bem, não é?). Limitei-me a perguntar o que lhe levou até ali. Ela não sabia muito bem, mas falou que andava muito triste e que não conseguia dormir nem comer há muito (embora fosse um pouco obesa).
Ela falou muito na falta de dinheiro e no relacionamento difícil com a mãe evangélica com quem não mantinha diálogo. Falou também que uma “pessoa” lhe tomava praticamente todo o seu salário.
Quando ela mencionou “pessoa” logo percebi que havia ali, uma questão de homossexualismo gritante e que sua tristeza era punitiva porque, conforme ela proferia o seu discurso, não aceitava sua própria condição. Ela estava apaixonada platonicamente por uma mulher que morava em outra cidade e vivia lhe pedindo dinheiro para se manter por lá. E eu, que pensava que essa pilantragem só acontecia entre “bofes” e “bichas” me espantei em saber que existia esse tipo de relação entre as “homes” e suas mulheres.
O interessante de tudo, que embora a coisa fosse explicita, ela nunca havia estado com outra mulher. Nunca mamou em outro seio que não fosse o de sua mãe (quando bebê, é claro) ou tocado outra vagina que não fosse a sua durante as horas de masturbação infindas.
Quando lhe falei que seu sofrimento era proveniente do fato de não aceitar a sua própria homossexualidade, ela ficou lívida (acho que ninguém havia sido tão direto com ela). Tinha que ser assim pois só havia aquela oportunidade de mitigar sua dor: atacando o inimigo – o seu próprio preconceito. Nós não nos veríamos mais depois daquela sessão, então a coisa tinha que ser imediatista e terapêutica ao mesmo tempo.
Era noite e sua imagem estava refletida na janela do consultório improvisado. Não sei se foi técnica ou intuição (acho que todo psicólogo deve ser intuitivo também) mas falei-lhe assim: Olhe para a janela. O que você vê? A minha imagem refletida, disse ela. Então agora imagine que deve sofrer é aquela lá na janela é a mulher que sofre e essa aí (apontei em sua direção)e é você que deve viver e ser feliz com a sua escolha.
Terminamos a sessão com um abraço forte. Ela me agradeceu e nunca mais a vi.
Algumas semanas depois, minha colega que encaminhou a moça perguntou o que eu havia feito com ela pois a mesma estava tão feliz que parecia ter resolvido toda a sua vida. Respondi que nada além de dar a ela a oportunidade de ser ouvida e compreendida
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