CARCARÁ
Outro dia eu estava assistindo a um programa de entrevista na televisão. A pessoa entrevistada era não menos emblemática Maria Bethânia (que mulher maravilhosa). Como dizia o finado Jorge Amado, ela é um Orixá vivo.
Junto com os seus músicos, ela iniciou cantando “carcará”, de Chico Buarque. Arrepiei-me todo. E fiquei fascinado com a interpretação da diva.
Conheço a música e ouço há tanto tempo, mas nunca tinha me dado à importância de prestar atenção na letra. Ficava mais atento a voz maravilhosa de Bethânia.
Recorri à internet para ter acesso à poesia do Chico Buarque e fiquei meditando sobre essa ave lindíssima que habita os sertões desse Brasil. Vi fotos também (magnífico animal, magistralmente “clicado” por algum fotógrafo da National Geografic).
Na poesia, a ave pareceu-me demonizada e má pela violência com que faz as suas vítimas, mesmo em situação de escassez total de alimento.
O carcará no caso é um herói, um paladino no processo de mitigação da fome. E, diferente de seus conterrâneos humanos, não abandona a sua terra nos momentos de infortúnio quando a seca cruel assola aquelas plagas tórrida.
Penso que no momento político que este país passava, o Chico não quis fazer críticas costumeiras e “maquiladas” sobre a situação, mas apenas falar da ave em questão, haja vista, num dos versos, o autor comenta que o carcará tem mais coragem do que homem.

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