segunda-feira, 25 de julho de 2011


O Marido
                Não sei onde nem quando ele nasceu. Deve ter sido pelos anos 40 acho eu e pelo que imagino tinha ascendência árabe por parte do pai.
Não sei em que ele trabalhava. Só sei que ele era um homem grande e musculoso daqueles que produziam suspiros nas donzelas quando passava nas ruas cheias de poeira e calor com sua camisa engomada e as calças de linho que lhes marcavam o traseiro musculoso. Os braços eram duas “toras” capazes de agüentar duas mulheres dependuras quando se exibia nos puteiros onde costumava ficar  ou talvez morar. Parece que sua mãe era uma cafetina por conta das histórias que ouvi.  Nunca entendi direito pois eu era criança ainda.
                Eles se apaixonaram e casaram contra a vontade do pai dela (sua mãe já havia morrido quando ela ainda era criança – tuberculose e fora sepultada num cemitério em Xapuri, no Estado do Acre). Ela tinha entre 17 e 18 anos. Sei que sua primeira menstruação foi aos 17 anos, coisa normal naquele tempo. Hoje as meninas menstruam com 10 anos.
                Nasceu o primeiro filho. Um menino saudável de pele trigueiro como a do pai. Não faltava nada: leite em pó do bom, talco “Pom Pom”, e “Seiva de Alfazema” para misturar à água do banho.  Enfim tudo que uma criança precisava naquela época quando tudo era difícil de chegar à cidade em que eles moravam. Só tinha uma coisa que era estranha naquela família feliz: Moravam em um quarto alugado num puteiro famoso na cidade. O pai dela nem imaginava isso. “Vixe Maria” se descobrissem.  Mesmo assim, ali eram felizes os três.
 O bebê era coberto de mimos pelas putas que lá moravam e trabalhavam como se fosse um Jesus renascido.  Elas cuidavam do menino quando não estavam na função e ajudavam a pequena mãe nos cuidados para com ele.  Quando lhe davam banho, enfeitavam-lhe o pequeno pênis com os anéis que ganhavam de seus clientes e o seu pescoçinho com muitos cordões de ouro, também frutos de seu trabalho.
 A vida corria tranqüila e eles finalmente saíram do puteiro para morar numa estância decente perto de famílias decentes também. Não que as putas não fossem decentes, porém, naquela época era uma atividade considerada ruim.
Três anos se passaram, nasceu o segundo filho. Uma menina linda que se chamaria Petrovicka não se sabe porque, mas uma viagem inesperada para ele fez com que trocassem o nome dela que nascera no ano de fundação de Brasília.
Foram anos sem notícia desse marido. Sem dinheiro, a esposa teve que pedir para voltar para a casa do pai, avô das crianças. Ele era um homem grosso e severo e como se dizia na época “tinha cabelos na venta” – acho que isso aumentava o poder do homem.  A recepção foi muito estranha e realizada através de uma surra violenta com um cinto de couro e um murro que a deixou desacordada e depois doente por varias semanas.  Tudo isso na frente dos netos e da irmã mais nova.  Na época havia um ditado nefasto: “Quem como do meu pirão, prova do meu cinturão”.
Num certo dia ela soube que esse marido havia desaparecida nas águas caudalosas do Rio Madeira. Segundo os relatos ele havia caído do passadiço do barco em que viajava não se sabe para onde.  A esposa agora era uma pobre viúva com dois filhos pequenos para criar. E sem condições, sozinha não poderia sobreviver.  Como resultado a viúva casou-se de novo e de vestido preto não se sabe por quê.
O segundo casamento começou bem. O novo esposo aceitou convenientemente os filhos bastardos e com ela teve quatro filhos.
A pobre mulher quis dar um novo pai para os filhos antigos e um bom pai para os que nasceram.  O que ela não imaginava e que com pouco tempo o segundo marido tornou-se um monstro que assombrava à todos: ela, os filhos do finado e seus próprios filhos.
Insultos, porradas, humilhações e outras atrocidades inconcebíveis povoaram aquela pobre família que se sustentavam como gente através de um amálgama de união que os fazia sobreviver pois não tinham outra alternativa senão suportar aquilo tudo.
Um dia, os filhos mais velhos já eram adolescentes e os mais novos com idades entre 5 ou 7 anos, o falecido reapareceu. Durante seu desaparecimento (o afogamento fora uma farsa para fugir de um delito grave), tornara-se um homem muito rico. Era dono de uma empresa de transporte numa cidade do sudeste do país.
De longe, ele tinha informantes que lhes contavam tudo o que acontecia com sua (até então viúva) esposa e filhos. Ele havia casado no lugar onde enriquecera e já tinha três filhos. Nesse lar que constituíra por lá, era como uma espécie de galo (comia não só a esposa de fato como a irmã dela, sua sogra, empregadas, babás ou quem mais aparecesse).
Tudo ele contou à antiga família e, vendo a miséria em que viviam resolveu raptar à todos – sua antiga esposa, filhos e agora os filhos do outro – o monstro. Levou todos para o sudeste junto com mais outro filho que até então era um mistério para todos. Eram sete pessoas ao todo, mas na verdade cada um era uma “mula” para muito contrabando que pagaria em muito as despesas com o transporte de tanta gente.  Meteu toda aquela gente na casa onde era o senhor absoluto,  temido e respeitado por todos que lá residiam.
                Pense na loucura: a antiga família com os agregados, a outra família e seus agregados tudo misturado num “balaio de gatos” onde todos tentavam se entender e entender a situação.
                Com o passar do tempo ele resolveu dar um lugar para a antiga família morar e mais uma vez abandonou a todos à sua própria sorte, afundados na miséria e na dor do abandono. Mas eles, como baratas, sobreviveram mais uma vez. Agora era diferente porque a amálgama de união fora desmanchada pois ninguém naquela família se entendia mais.
                Após alguns anos, o marido morto e revivido morrera de verdade. Na miséria, abandonado por todos, tratado como um bicho que tinha que necessitava de fralda para não sujar a casa já imunda pelo descaso de seus filhos e esposas que também foram abandonados à própria sorte.

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