segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A GÊNESE

A GÊNESE
                Ela era má!
Mais muito má mesmo.   Não ficava satisfeita enquanto não maquinasse uma maldade logo depois de acordar.  Ficava ruminando com que vizinho ia encrencar ou quem lhe dirigiu, mesmo que hipoteticamente uma ofensa para arrumar uma briga para mais tarde e satisfazer a sua sanha em fazer o mau.  Ela era tão amarga que por duas vezes tentara matar seu único filho, que fora concebido também para causar mal a outra pessoa.
Sua maldade era tão grande que às vezes ela própria tinha medo.  Quando havia uma criança de colo por perto, ela pedia encarecidamente que a afastassem para não “dar quebranto”.  Evitava olhar as plantas delicadas que morriam com sua passagem, inclusive as plantas “fortes” como a arruda por exemplo.
A primeira vez que tentou matar o seu filho ele tinha apenas três anos de idade. Foi salvo pela avó que acudiu a criança e lhe bateu com uma vassoura, pois não tinha força para encher a mão.  _ Por que tu fizeste isso sua filha da puta! Quer matar o teu filho? _Eu quero que esse diabo morra, dizia ela. _Então porque tu procuraste filho, para fazer isso? _ Sua puta de merda! E o menino coitado, já estava ficando roxo em virtude do esganamento e fora salvo graças ao aviso dado por um irmão dela ao qual ela nutria um ódio mortal. Ela odiava aos irmãos com todas as suas forças e fazia de tudo para vê-los sofrer.
A segunda vez foi à faca, ele já tinha treze anos e a avó não estava perto e não tinha ninguém para acudir o menino.  O jeito foi fugir para a casa do tio, irmão mais velho. _ Tio eu não quero mais voltar para lá, não. Ela vai me matar. Quinze dias depois o tio o levou de volta e lançou uma ameaça: Se tu tentares fazer aquilo de novo eu te mato sua filha da puta! Agora pede desculpas ao teu filho que ainda é uma criança. Os dois (mãe e filho) choraram abraçados e a coisa se resolveu por um tempo.
Quando mais jovem, sua forma praticar o mal consistia em inventar histórias envolvendo os seus irmãos menores por parte da mãe para que eles apanhassem, quando não ela mesma se encarregava da tarefa por qualquer coisa.  Ela batia com que tivesse nas mãos. Mas o que ela mais gostava era de dar socos vindos de cima para baixo e ver o sangue descendo dos narizes dos pobres e indefesos.  Se contassem para a mãe, a porrada era segura. Podia esperar um beliscão daqueles que levantam a pele, um puxão de cabelo que quase deixava a criança careca, fora outras atrocidades que não dá para colocar neste texto.
Ela tinha preferência sexual por mulheres e engravidou do marido de uma vizinha com quem tinha um caso amoroso só para se vingar e escondeu essa gravidez de todos em sua casa (ela era meio gorda e costumava usar umas batas folgadas e ninguém desconfiava).  Quando a mãe descobriu, a bolsa tinha acabado de estourar.  Como não tinha passagem, a pobre criança teve que vir ao mundo na base do fórceps e sem nenhum cueiro para cobri-la. Tudo foi improvisado.
Sempre se meteu com as pessoas mais perigosas de onde morava: traficantes, ladrões, matadores de aluguel, putas de toda a qualidade que possa se imaginar, embora não tivesse outros vícios que não o de fazer maldades.  Com esses “amigos” tramou a morte do próprio irmão de sangue não se sabe por quê. Sorte ele ter percebido antes e tomado outro caminho para chegar a casa.
Ela era má! Má! Má em toda a sua essência, mas nem sempre foi assim.
Ela nasceu uma criança linda, de olhos negros e graúdos, emoldurados por cílios enormes e sobrancelhas aveludadas. Era muito branca, de bochechas rosadas como às de um querubim e seus cabelos negros realçavam ainda mais a alvura da pele. Era a caçula da família. O pai desaparecera e fora dado como morto. A coitada era órfã sem ter conhecido o pai.
A mãe, sem ter como criar os dois filhos sozinha, resolvera casar novamente com um homem maravilhoso que conhecera em uma festa e que prometera criar as crianças como sendo seus próprios filhos. A sogra praguejou em surdina: Esse “baitola” quer ser “jacamim”. Onde já se viu pegar mulher arrombada e ainda com curumim para criar?
Foram nascendo os filhos desse casamento.  O primeiro foi arrancado do colo da mãe logo depois de nascer.  O avô, seguindo uma tradição ridícula do nordeste disse: O primeiro filho homem do meu primeiro filho homem sou eu quem cria.
A mãe, no cuidado com o bebê que chegara depois, deixava a filha aos cuidados do irmão mais velho que era tão criança quanto ela. Foi quando o namorado de sua tia postiça, um rapaz simpático que era taxista a encontrou sozinha próximo à janela. _ O que tu fazes ai? Tá sozinha? Tô sim senhor, ela respondeu com sua voz infantil.  Ele subiu a escada tirou o enorme pênis para fora da calça e lhe disse: Tu gostas? É um pirulito, pode chupar, vai!  Ela hesitou e disse: mamãe falou que isso é imoral e pecado. _ Tua mãe não sabe de nada, pega logo! Ninguém vai ver.
Ele levantou a criança ao colo, tirou-lhe a calcinha encardida e meteu o pênis entre suas coxas minúsculas e iniciou o vai e vem frenético com a criança ao colo e gozou toda a sua sujeira no vestidinho da menina.  Sorte que uma tia viu e deu o alarme.  A parentada se reuniu para da uma surra no filho da puta, mas ele fugiu.  Logo depois ele se casou com a Irmã de seu padrasto e ficou por isso mesmo. Deixaram até de falar com a tia que deu o alarme. Posteriormente, disseram que a criança havia se insinuado para o tarado. Imagine com apena quatro anos de idade ela ia saber o que era aquilo.
O tempo foi passando, ela foi crescendo e a família crescia junto. Já eram três crianças menores para dar banho, vestir e pentear e ainda estudar no Grupo Escolar próximo de casa. Ela não dava trabalho.  Não gostava muito de estudar, mas adorava bordar e fazer trabalhos manuais.
Um dia, quando ela tinha doze anos, enquanto a mãe lavava roupa na cacimba na companhia dos menores, ela estava só em casa quando o padrasto chegou (era uma criatura hedionda que todos na casa temiam). Foi para o quarto, pois era seu costume deitar depois do almoço antes de voltar ao trabalho. Lá de dentro ele gritou: Vem cá e traz um cigarro pra mim! Ela entrou timidamente no quarto e ele já estava nu em pêlo (ela teve nojo de suas cicatrizes de uma queimadura severa sofrida há alguns anos). Tira a roupa ou tu apanhas! Ela não teve outra alternativa  senão obedecer pois sabia que a ameaça era real. Ele se meteu dentro da pobre criatura indefesa e ela não emitiu um barulho sequer. O estupro estava consumado! O que ele não contava é que uma das crianças menores viu e foi correndo à cacimba contar à  mãe. _ Mamãe, o papai ta “fazendo imoral” com a maninha. A mãe largou tudo e foi la´. Arrombou a porta com o pé e viu a cena nauseabunda e, com uma vassoura bateu nele e nela. Seu filho da puta! Como tu tens coragem de fazer uma safadeza dessas com tua filha! Seu ordinário! E a vassourada cantando no centro. Ainda se podia ver o pênis bambo escondido sob o lençol pingando de esperma.  Essa cena ficara gravada apenas na memória de quatro pessoas: O filho da puta estuprador, a mãe horrorizada com a cena, a pobre criatura agente passiva da ação e a criança que presenciou tudo e soou o alarme.  Isso ficou abafado e ninguém, mas ninguém mais soube.
A situação para ela ficou insuportável. O padrasto não queria mais ela na casa em virtude do ocorrido.  A mãe não podia fazer muito a não ser aceitar a situação para que o resto da filharada não morresse de fome (que era grande e sempre presente).  Ela teve que ir embora de casa e depois foi internada numa instituição para meninas infratoras onde aprendeu tudo o que não presta.  Foi ali que ela experimentou o corpo de outra menina.
E assim ela se tornou mulher. Amarga, de mal com a vida.  Fechou-se num mundo doentio que ia cada vez mais tomando conta de seu ser e o único desejo que lhe vinha à mente (talvez de forma inconsciente) era a vingança contra aquele que lhe desgraçara a vida: o padrasto que lhe roubou a infância, a virgindade, a liberdade e o direito de ir e vir.
Então, primeiro ela se voltou contra os irmãos mais novos (filhos de sua mãe com o padrasto) e depois com o resto do mundo.
Quem é o culpado no caso dessa pobre criatura que só reage contra as mazelas que a vida lhe ofereceu?

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