terça-feira, 18 de outubro de 2011

A BARBIE SEREIA E A SUPERAÇÃO DO MEDO

            Naquele Natal, de todos os presentes que ela havia ganho, sem dúvida nenhuma a Barbie Sereia foi o que mais lhe chamou a atenção.  Sua enorme cauda cor de rosa irisado cintilava ao sol e os cabelos (loiros como deve ser qualquer boneca Barbie norte americana) mudava de cor quando em contato com a água. Era a coisa mais linda do mundo e aquela menina não desgrudava mais dela. Penteava, prendia-lhe a vasta cabeleira “mágica” com todas as suas “piranhas” coloridas favoritas (que eram muitas) e a mergulhava nas águas geladas e caudalosas daquele igarapé maravilhoso, mas não ousava molhar além das mãos, pois tinha medo de se afogar (medo este imposto por sua avó e mãe).
            Acontece que na outra margem do igarapé havia um tronco caído que convidava a todos para tomar o sol da manhã. Este tronco já havia sido uma gigantesca árvore que abrigou em toda a sua estrutura inúmeros nichos que iam desde pequenas osgas a bromélias, ninhos de japiim entre outros que só um bom ecologista poderia elencar. Pois bem, o local onde ficava o tronco não oferecia risco porque estava numa curva onde a areia se acumulava, logo era raso e todos, em seus pensamentos gostariam de estar do outro lado para apreciar a paisagem de outro ângulo (a grama do outro lado da cerca é sempre mais verde).  
            A avó se recuperava de uma cirurgia e, com os pés na água, sentada no trapiche de madeira relembrava com saudade seus tempos de criança quando nadava como uma piaba na correnteza forte às margens do Amazonas junto com os irmãos, pulando sem medo do alto da cuieira que pendia perigosamente à beira do barranco que a cada ano recuava um pouco devido às “terras caídas”.  A mãe nem ligava, pois estava muito ocupada no roçado catando mandioca para a “farinhada” que se aproximava antes do rio engolir tudo. Sem pensar muito ela se lançou na água sob protesto das filhas histéricas que observavam a cena de perto. E lá foi ela para o tronco na outra margem e ficou lá observando tudo e a todos sorvendo aquele momento mágico como um sedento a um copo com água.
            A neta, vendo aquilo disse: Vó eu quero ir praí. A avó respondeu: Vem! E isso assustou aos outros que observavam morrendo de inveja, pois também gostariam de estar lá.  Vamos ver se “dá pé” dizia uma. Outra dizia que não dava, pois era fundo próximo do trapiche. Mas a vovó tá lá, dizia a pequena com a boneca na mão. Vai com a Barbie dizia outra pessoa, pois ela é uma sereia e sabe nadar. Foi quando tomaram coragem e caíram na água e juntos, todos foram tomar sol no tronco maravilhoso que esperava a todos.
            A Barbie era de longe a mais audaciosa, mas acabou sendo esquecida no decorrer da brincadeira e foi boiando sozinha para longe. Foi quando alguém falou: menina olha a tua Barbie! Ela ta indo embora.  Pega ela tio, mas ela sabe nadar. Ela é uma sereia.

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