quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A MOCRÉIA DO COLETIVO
            Tudo nela era falso. Se não falso, era falsificado.
            Nos cabelos, espichados com uma dessas escovas novas que recebem os nomes de ”marroquina”, “japonesa”, “egípcia” e por ai vai ela usava uma tinta vermelha jurando de pés juntos ser da “Wella”.  Olhando mais de perto podia se distinguir três cores: branco na raiz, uma parte castanha e outra amarelada parecendo mais com os pelos da cachorra Lassie.
            Ostentava a frente dos olhos um par de óculos enormes que lhe cobriam quase toda a cara da marca “Prada”, fora  comprado ali mesmo no terminal da Cidade Nova por oito reais (o camelô disse que eram originais por isso tão “caros”). Sobre o colo repousava uma bolsa lindíssima (ela assim dizia) “Louis Vuiton” que custara a fortuna de vinte reais no “bate palmas” da Marechal. A blusa vermelha, num tecido que obscuramente assemelhava-se a seda, era “Coco Chanel”, comprada também na Marechal  e uma calça jeans tão apertada que se ela peidasse rasgava o fundo, na cor preta da marca “Hugo Boss” (essa ela comprou de uma sacoleira que sempre ia aos domingos vender seus produtos na sua casa) que custou cento e trinta reais (que ela pagara em seis prestações). Nos pés, uma sandália de saltos de acrílico transparente altíssima que lhe apertava um enorme joanete que tinha no pé esquerdo porque uma de suas pernas era bem maior que outra. Enfim, era a própria visão do Cão chupando manga ao meio dia sob um sol escaldante.
            Ela estava sentada na cadeira do corredor num ônibus lotado às sete e meia da manhã, atrasada porque tinha estar na casa da patroa no Parque Dez às oito horas em ponto para colocar o café na mesa para o chato do Fernandinho (um moleque de doze anos que passava horas se masturbando assistindo sacanagem num site pornográfico) que tinha aula de inglês às nove.
            Embora atrasada, ela ia aproveitando a viagem ouvindo musica brega do Pará num “head phone” acoplado a um mp3 chinês da marca “Waiko” (um horror!) quando um rapaz muito bonito postou-se próximo a ela fazendo de tudo para não incomodar a moça. Ela olhou por traz dos óculos “Prada” e pensou: Nossa que delicia! E aproximou o ombro do pau do rapaz que fazia de tudo para se afastar dela com medo de uma reprimenda (ela poderia achar que era abuso sexual – coitado do rapaz). Quanto mais ele afastava mais ela remexia o ombro no pau do rapaz que ele percebera o intuito da mulher e se riu por dentro.
            _Será que essa mocréia ta me roçando de propósito? (pensou ele) E ela tá se achando e eu vou dar corda.
            Ele a deixou ficar lhe roçando o pau e se achando a tal.
            O que ela não percebeu é que o rapaz bonito que ela bolinava era gay e casado com outro rapaz tão bonito quanto ele.
            Ironia ou não, essas coisas acontecem de vez em quando no interior de ônibus.    

Um comentário:

  1. a pergunta que não quer calar? essa mocréia fez o quê para você? para receber uma atenção de você.

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