AS LUZES DO NATAL
Ele era um sujeito pacato que gostava festas, brincadeiras e outras coisas, mas na sua vidinha medíocre havia algo que nem ele próprio sabia explicar: Ele odiava o natal, não só o natal, mas o mês de dezembro inteiro.
Quando chegava a data fatídica, ele se escondia para que ninguém lhe encontrasse para aqueles abraços esfuziantes e felicitações que sempre considerava falsas e momentâneas. Odiava as luzes, os enfeites, Papai Noel e, sobretudo a maldita Árvore de Natal.
Toda vez que vislumbrava uma árvore de natal, tinha vontade de chutar, quebrar aquelas bolas coloridas ridículas, guisar aqueles festões metálicos e pipocar com os pés as lâmpadas coloridas uma a uma para liberar ali, toda a sua raiva.
A cada ano, quando a data se aproximava, vinha a angustia de ter que se esconder e evitar olhar o seu objeto de ódio.
Certo dia, no fim do mês de novembro, ele estava atrás do balcão da loja de ferramentas em que trabalhava, viu ao longe uma movimentação de pessoas num posto de gasolina. Os funcionários estavam decorando o estabelecimento para as festividades do natal como de costume no comércio para atrair fregueses. Mais uma vez ele angustiadamente se perguntou: Porque odeio tanto o natal? Não só o natal, mas tudo o que ele representa? Passou quatro horas observando a movimentação e fazendo a si mesmo a mesma pergunta como se fosse um mantra maldito. De repente, ele entrou numa espécie de catatonia e do recanto mais profundo do seu inconsciente veio uma lembrança que lhe fez entrar num pranto tão violento que precisou fugir da loja sem explicar para ninguém o motivo. Só se sabe que no dia seguinte faltou ao trabalho para ir à cidade e comprar tudo para receber Papai Noel: árvore, bolas, guirlanda enfim dezenas de enfeites para decorar a casa humilde em que residia de favor.
A lembrança veio de sua infância miserável junto com sua numerosa e infeliz família. Quando muito criança ainda, perguntou a sua mãe: Mamãe, porque nos não temos árvore de natal como todo mundo? A mãe, com os olhos cheio d’água, respondeu: Meu filho, se eu comprar uma árvore de natal, nós vamos ficar o mês de dezembro inteiro sem comer,
Ele não entendeu muito bem a resposta, mas não questionou, pois estava acostumado (se eu comprar isso, vai faltar aquilo) e se voltou as brincadeira com um coelho de pano costura à mão pela mãe e os outros brinquedos feitos por ele mesmo. Foi quando o irmão mais velho, muito responsável disse; Vamos fazer a nossa própria árvore.
E assim foram todos os irmãos buscar os elementos para fazer a árvore. O mais velho foi atrás de um galho seco e frondoso pelas redondezas enquanto os menores procuravam papeis coloridos e brilhosos de balas para embrulhar as pedrinhas e amarrar com linha de costura para fazer as “bolas” que enfeitariam a árvore tão sonhada. Em algumas horas, a árvore mais linda do mundo estava pronta e todos ficaram adorando aquela que tinha sido o produto de um trabalho em equipe que funcionara tão bem. A mãe, orgulhosa do feito dos filhos chorou de alegria. Foi quando o pai, criatura amarga e cruel, chegou e disse: Que putaria é essa aqui! E largou um chute destruindo aquele trabalho maravilhoso dos pobres irmãos.
Os pequenos ficaram sem entender e se recolheram no seu medo e o mais velho foi chorar num canto jurando silenciosamente matar aquele filho de uma puta sem coração.
No ar ficara a sentença: Não nascemos para ter essas coisas e o ocorrido fora esquecido, mas marcara aquela família toda para o resto de suas vidas.

As vezes precisamos juntar esses pedaços de pedras que envolvem nossas vidas e delas fazer uma bela escada e olhar lá de cima e vê que viver vale apena.
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