A TEIA DA ARANHA E O FASCINIO DA REDE
Os gregos antigos eram ótimos (porque os de hoje só dão vexame). Para tudo tinham uma explicação de origem divina.
Conta a lenda que Atena, entre os inúmeros atributos divinos, era ótima tecelã. Acontece que existia uma mortal chamada Aracne que tecia “divinamente”, provocando ira e ciúmes na referida deusa. Atena resolveu dar um castigo na pobre mortal que se sobressaia na tarefa de tecer. E a deusa lançou sobre a pobre moça uma maldição: _ Passarás tuas noites tecendo para o teu trabalho ser destruído pelas mulheres na manhã seguinte. E a pobre foi transformada em uma aranha.
Manuel acordou tarde naquele dia. Era seu aniversário e estava completando 30 anos. Esticou os dedos dos pés que estalaram involuntariamente fazendo barulho no silêncio do quarto que fedia a mofo de tanto permanecer com as janelas fechadas. Estava de férias, pois era o recesso na escola secundária em que lecionava Português.
A mãe, uma senhora alegre de 72 anos bateu à porta para avisar que o café estava na mesa. Manuel abriu a porta e foi abraçado pela velha senhora que lhe parabenizou por mais uma passagem de ano e silenciosamente agradeceu à Deus por ainda ter aquele filho junto dela (os outros seis casaram, mudaram e não deixaram endereço) para lhe amparar na velhice.
Manuel nascera de uma aventura de sua mãe com o taberneiro da esquina em uma festa na qual todos beberam muito, o que causou revolta no resto da família. Ela enviuvara fazia três anos e se entregou àquele homem ali mesmo, na rua escorada no poste sem lâmpada. Ele quis assumir o filho, mas ela não aceitou, criando o menino sozinha. Os outros filhos já eram adultos ou adolescentes quando Manuel nasceu.
Foi um menino bom, estudioso, educado e dedicado à mãe, que era tudo para ele e vice e versa. Os outros filhos foram se formando, casando e indo embora. Só Manuel ficou. Talvez em agradecimento pelo fato de ser tão enjeitado pelos outros irmãos em virtude de sua condição: O filho do poste sem lâmpada (era como os irmãos lhe chamavam às escondidas).
E assim foi crescendo. Nunca levou namorada em casa e ninguém sabia se ele namorava (muitos achavam estranho aquilo e murmuravam pelos cantos que ele era gay).
Manuel passava o tempo trancado em seu quarto lendo ou estudando. Era bem verdade que passava a maior parte desse tempo se masturbando freneticamente. Sexo com mulheres, apenas três vezes por insistência de um amigo. Escolhia sempre a puta mais sebosa e feia da zona. Depois, tomava um banho com sabão “Cotia” para se livrar dos “germes” que a mulher possivelmente lhe passara. Quando era beijado por alguma menina da escola, corria para escovar os dentes com nojo. E assim foi se fazendo homem.
Quando foi estudar o segundo grau, a mãe lhe presenteara com um computador. Ficou fascinado com as possibilidades que a máquina proporcionava, mas o que mais lhe chamou a atenção foi poder se relacionar com outras pessoas sem tocá-las. Namorava, aprendia, conhecia e fodia. Inscreveu-se num site de relacionamentos para homens e começou a navegar no universo paralelo da veadagem virtual.
Escolheu o perfil do par ideal e lá foi ele na busca pela sua cara metade. È bem verdade que todos os homens disponíveis eram gordos, barrigudos, com nível superior completo (alguns muito pós-graduados), geralmente professores e funcionários públicos moradores de cidades distantes. A maioria dos candidatos mentia sobre seu aspecto físico.
Manuel interessou-se por um homem de 44 anos, que na verdade tinha 56, morador de Curitiba que pareceu ser muito agradável. Passavam horas diante do computador teclando juras de amor para o outro até que ele resolveu conhecer o namorado virtual.
Tirou uma licença de dez dias e foi ao encontro do pretenso amado. O sujeito que foi lhe encontrar no aeroporto era muito diferente do das fotos enviadas por e-mail. A situação foi um tanto constrangedora, mas ele já estava lá mesmo... Abraçou o amigo que agora era real e lhe um beijo no rosto em pleno saguão do aeroporto. Seria um escândalo, já que o amigo era um senhor casado e não assumido.
Manuel ficou puto com aquela situação e pensou em como aquele veado velho e filho da puta lhe enganara o tempo todo. Foram para o hotel que o hospedara e quase foderam ali mesmo no elevador. Mesmo decepcionado com o aspecto do homem, Manuel fodeu aquele sujeito como nunca havia fodido na vida. O cara era praticamente um profissional na arte de dar prazer e Manuel gozou como nunca até seus testículos ficarem doloridos.
Após horas de sexo, Osvaldo (esse era o nome do veado mentiroso) disse a Manuel que não poderia mais se vê-lo porque ele tinha família e que jamais assumiria a sua homossexualidade e que nunca sairia de sua cidade para uma aventura amorosa. Manuel, encolerizado deu um murro na cara do sujeito que lhe quebrou o nariz e quatro dentes. O caso foi parar na polícia. Os funcionários do hotel que chamaram a viatura. Lá, Manuel resolvera desmascarar o veado enrustido e o caso foi parar nas páginas do Diário Curitibano e o que era para ser prazeroso se transformou em um pesadelo. Esclarecido o fato, vingado da pilantragem do outro, Manuel voltou pra casa. Triste. Muito triste mesmo.
Resolveu se abrir com a velha mãe e chorou muito. A mãe disse ao filho que entendia e que se solidarizava com ele, mesmo preferindo que ele casasse com uma mulher descente e lhe desse ao menos um neto para querer bem, pois os outros 16 eram praticamente desconhecidos para a pobre senhora.
Manuel não conseguiu mais fazer nada. Os alunos ainda lhe eram uma distração, mas virou motivo de zombaria entre eles porque a experiência dele em Curitiba foi para nos tele jornais da Rede Globo em horário nobre, informados pela Fátima Bernard (HOMESSEXUAL REVOLTADO ESPANCA AMANTE EM HOTEL DE CURITIBA). A bebida se tornou sua companheira e amante.
Parou de se conectar a rede e de se relacionar com o mundo. O computador voltou a ser apenas um instrumento de trabalho.

Adorei, queria poder quebrar a cara de muita gente e ainda poder f... um monte, e se fosse possível ainda colocar no jornal. O manuel fez tudo que eu queria fazer.
ResponderExcluirO tempo passou... 2016, estou relendo o conto.
ResponderExcluirMuito bom.