A MÃE
Mamãe era uma mulher extremamente espirituosa. Sempre tinha uma resposta e uma explicação para tudo (Deus, doenças, planetas, plantas, santos, remédios etc.). Mesmo que não fosse aquilo exatamente que a gente queria mas ela sempre aproximava de uma coisa que demonstrava coerência. Como ela, tornei-me assim também.
Estudou pouco. Concluiu o ginasial pelo Projeto Minerva no começo dos anos 70 bem no auge da ditadura militar. Trabalhava de dia e estudava à noite. Sempre tirava boas notas (100 no mínimo), o que nos fazia pensar e “botar pra quebrar” para chegar junto. Adorava pesquisar nas enciclopédias. Seu sonho era ter dinheiro para nos presentear com a “BARSA” ou “MIRADOR” – as coqueluxe da época, claro que isto nunca aconteceu.
Não lembro em que ano ela nasceu nem em que ano ela partiu. Gosto de lembrar como ela foi e o que ela significou para todos que a cercavam e a respeitavam pela sua sabedoria. Era quase uma alquimista.
Ela como mãe era um pouco relaxada, porém “cuidadora”: adoeceu, lá vinha ela com um cházinho, um remédio milagroso, um cataplasma, uma “ventosa” de copo ou uma injeção de Benzetacil daquelas que doía só de mencionar o nome.
Mamãe adorava ler. Lia tudo o que lhe caia às mãos, principalmente bula de remédios. Adorava fotonovela e se aprazia nas páginas da “Grande Hotel”, “Capricho”, “Killing” – uma fotonovela sobre um serial killer que gostava de matar mulheres e usava uma mascara de caveira para esconder o rosto. Gostava também de ler romances de todos os tipos alem e poemas de Castro Alves. Estranhamente ela gostava de ler umas revistas em quadrinho de terror tipo “Contos da Cripta”, “Drácula” e gibis de toda espécie. Gostava também de livros de bolso pricipalmente “Z Z 7” – um periódico cheio de passagens sensuais sobre uma espiã francesa chamada Brigitte Monfort que sempre resolvia os casos levando os homens para a cama.
Mamãe passava horas lendo. Lia tanto que às vezes esquecia que precisava cozinhar para quando a filharada voltava faminta da escola querendo comida. Deixava o feijão queimar na panela de pressão, esquecia de lavar a roupa na cacimba e quando lá estava, coarava a roupa deleitava-se nos romances açucarados de Barbara Cartland. Vez ou outra um dos pequenos caía dentro da cacimba e era “um Deus nos acuda” para salvar o menino que se afogava naquela água gelada. Claro que no fim sobrava um cascudo ou um puxão de orelha para ter mais cuidado pois, segundo ela “água não tinha cabelo para segurar”.
Tudo que mamãe lia eu lia também. Algumas vezes escondido. Quando eu ainda não sabia ler, viajava nas figuras e fotos das revistas. Hoje me pego pensando no que se passava pela sua cabeça quando mergulhava naquele universo de amor, sexo, terror e informação. Será que durante a leitura ela fugia daquela miséria e era uma princesa, uma heroína, uma amante voluptuosa. Provavelmente sim pois é essa a função dos livros.
Obrigado mãe por ter me ensinado tanto sobre o mundo e a vida. Saudade........
Bonito texto!
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