TITÃ
Ao iniciar este texto lágrimas de tristeza me vem aos olhos e penso não ter estrutura psicológica para continuar, mas isso faz parte de meu processo catártico de cura.
Quando ingressei na universidade em 1984, não conhecia nada da vida a não ser dor, humilhação e ódio. Ódio daqueles tão profundos que tenho medo de lembrar. Hoje ainda odeio, mas não com tanta força como a que eu tinha naquela época. O ódio me alimentava e me mantinha vivo para por em pratica toda a vingança que eu arquitetava todos os dias contra meus algozes.
Ainda vivíamos sob o fantasma da Ditadura (da qual sabia tão pouco). Era seu final e ela dava seus últimos suspiros nas unhas do famigerado General João Baptista Figueiredo que eu, na minha meninice tive o (des) prazer de ter a mão apertada por ele numa cerimônia na Secretaria de Educação de Duque de Caxias no Rio de Janeiro por ser, aos 12 anos de idade, o professor mais jovem do Brasil (eu ministrava aulas no MOBRAL).
Indo contra tudo e contra todos, ingressei no Movimento Estudantil em um grupo de esquerda e, toda sexta-feira no final da tarde nos reuníamos em uma sala obscura de um obscuro prédio na Praça 14 para estudarmos sobre Socialismo e seus teóricos. Lembro-me de um em especial que falava sobre a ditadura do proletariado explicando o que não havia dado certo em Cuba e União Soviética que dizia: O desejo do oprimido é oprimir. Não entendi muito na época, mas fingi entender para não ficar para trás diante de meus colegas intelectuais de esquerda, ateus convictos que hoje ostentam em suas salas, consultórios e escritórios imagens enormes do Cristo crucificado e de Nossa Senhora com olhos elevados para os céus (risos). Ao final de cada aula dessas, nós jogávamos o material subversivo em um camburão nos fundos da casa para queimar.
Hoje penso no que os teóricos queriam dizer em seus textos e vejo o quanto são verdadeiros em qualquer cultura ocidental. Quando criança, éramos espancados pelos pais, irmãos mais velhos e garotos maiores. Depois, quando maiores, éramos humilhados por pessoas as quais precisávamos por não ter um teto nosso para nos abrigar e proteger (todas por onde passei sem exceção) e nunca tive em minha vida algo ou alguém menor em quem bater ou humilhar como aconteceu comigo. Porque essas coisas são absorvidas por nós inconscientemente aparecendo depois na forma desses sintomas hediondos.
Numa fase critica de minha vida em que eu me encontrava tomado pela depressão, e o desespero me levou a me entregar ao vício em álcool e outras drogas pesadas com as quais estabeleci um vinculo compensatório que funcionou tão bem que não conseguia largar e quase me levou à morte e perda de meus grandes amigos. Aos poucos, esse vinculo foi diminuindo, mas a necessidade do organismo falava mais alto e eu acabava me arriscando nas “bocas de fumo” nos lugares mais horrorosos que um ser humano totalmente degradado pode chegar (contarei um dia essas historias de terror profundo).
Um dia fui comprar peixes para meu aquário e vi um filhote de cachorro da raça Yorkshire. Foi amor à primeira vista. Ele era tão pequeno que cabia na palma de minha mão (que não é grande), Namoramos três semanas até que tive coragem de comprá-lo à prestação, pois era bem caro e o levei para casa. Parecia um brinquedo de pelúcia que todos olhavam com inveja ou admiração.
Meu maior prazer era voltar para casa e brincar com ele. Era um lorde dentro de sua caminha verde me fitando e abanando o toco de rabo.
Dei-lhe o nome de titã num deboche ao seu tamanho. Quando cresceu, media dois palmos de comprimento por um de altura. Lindo! Mas tinha um problema: tudo que ele aprendia hoje através do treino (e olhe que tentei de tudo) ele esquecia em uma semana. Xixi, só no meio da casa. Cocô, só na porta da entrada e isso me irritava muito.
Comecei gritando com ele. Depois lhe dava pequenos “petelecos” com os dedos como que brinca de bolinhas de gude. Até que um dia, estava sem drogas em casa e com muita raiva, bati pela primeira vez com raiva. Desde esse dia ele ficou arredio comigo. Brincava só quando eu chegava e depois se escondia em sua caminha com medo. E quando defecava na porta, ela já sabia que vinha bronca e desaparecia se tremendo todo. Eu percebia e chorava com pena. Eu queria reconquistar a confiança do meu cãozinho tão lindo e frágil (só vivia no veterinário com gripe ou outra mazela como inflamação na garganta entre outras). Todos na clínica acreditavam que eu cuidava bem dele, mas eu só tratava mal aquele que só queria me dar amor e atenção.
Numa tarde, não havia conseguido droga, cheguei e tinha cocô na porta. Primeiro esfreguei a cara dele na merda e depois bati com força. Veio em mim toda aquela raiva covarde do grande diante do pequeno. O bichinho gritava, mas ao invés de fugir corria para baixo de minhas pernas como que pedindo socorro a quem lhe machucava.
No dia seguinte cheguei para brincar e me desculpar. Ele só tivera tempo de balançar o rabinho e cair vomitando. Morreu de madrugada em convulsão com um ano e meio de idade. Carrego comigo a culpa de tê-lo matado, embora ela já apresentasse convulsões outras vezes e não sei se as pancadas aceleraram o processo.
Enterrei o seu corpinho sem vida de madrugada chorando e me mal dizendo: Meu Deus como eu tive coragem de matar a quem só nasceu para dar amor e alegria?
Hoje consegui me livrar das drogas, mas carrego a culpa por ter repetido o que meu pai, irmãos mais velhos e outros parentes filhos da puta fizeram comigo no meu cachorrinho tão lindo que esta enterrada num cantinho especial no fundo do quintal.
Sempre vou lá e olho o local com saudade. Meu Deus, como eu queria voltar no tempo e fazer diferente.
Eu espero que, no Céu dos cachorros, ele esteja olhando por mim e perdoe o que eu fiz, pois até hoje choro quando me lembro dos seus pêlos azul-chumbo e dourado brilhando ao sol e balançando com o vento.
Me perdoe meu cachorrinho querido, pois ainda choro muito quando lembro de você.
O Arrependimento é o retorno a Deus.Talvez tivesse sido este o seu passaporte para o nascimento da pessoa que você é e busca aperfeiçoar-se.Naquele momento você usava um mecanismo defensivo e se desvencilhou dele através de um espelho.
ResponderExcluir" Conhece-te a ti mesmo"
Abraço apertado em você!
O Shin me mostrouu uma vez a foto de seu cachorrinho e falou várias vezes nos seus peixes, espero que tenha vivenciado isto, eu tenho cachorros, mais precisamente quatro, os amo de coracao! Abraços, gostei muito do seu Blog.
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