Betta splendens E O NARCISO
Luis Oyama ficou parado, no interior de carro (de marca japonesa), olhando a loja de “pet shop”.
Um frio percorreu sua espinha de cima a baixo. Tinha que decidir a compra de um animal de estimação. Finalmente criou coragem e entrou. Foi até o balcão da loja onde dois atendentes sonolentos aguardavam. Pois não, senhor! Disse um deles. _ Quero comprar um bicho de estimação. Temos vários senhor: cães, gatos, ratos, iguanas, cobras e lagartos, aves de todo tipo e peixes, disse o vendedor olhando para cima. Eu quero um que não dê trabalho, disse Luis ao vendedor, o que despertou de sua sonolência em virtude do calor que fazia lá fora.
O odor de ração canina encheu as narinas de Luis que se sentiu sufocar. Ele olhou desinteressado à sua volta. Foi quando o vendedor disse: Por que o senhor não leva um beta? O que é um beta? Perguntou Luis. É um peixe... Vamos lá no fundo da loja que eu mostro ao senhor. E foram os dois ver o peixe.
Quando Luis viu os peixes ficou maravilhado. Que belos animais! Com suas nadadeiras imensas e coloridas agitando-se languidamente na água do minúsculo recipiente. Escolheu um azul que já vinha acompanhado de um pequeno aquário, pedrinhas coloridas e uma plantinha artificial. Ouviu as recomendações do vendedor, pagou e foi para a solidão de seu bem equipado apartamento.
Luis Oyama era solteiro, filho de um imigrante japonês e de uma prostituta da região do Brás em São Paulo. Acabara de completar quarenta anos, mas tinha um corpo atlético e bem conservado e era o diretor em uma indústria de gabinetes plástico para computadores e aparelhos de som. A indústria era pequena, com apenas 50 empregados distribuídos seis na administração e o restante em serviços gerais e produção.
A fábrica funcionava em um único turno e faturava bem, pois era muito bem administrada pelo Dr. Luis (como era chamado por todos). Era bem sucedido e independente (saíra da casa dos pais logo que terminara a faculdade já com emprego garantido na empresa onde fora estagiário).
Em virtude de suas origens asiáticas, era muito fechado e se relacionava muito pouco com as pessoas. Na fábrica era atencioso com os funcionários, mas sempre mantinha distancia de todos.
Luis retornava para casa todos os dias exatamente às oito horas e a primeira coisa que fazia antes de meter-se sob o chuveiro era se masturbar. Luis se masturbava até seis vezes por dia quando estava em casa e, toda vez que via seu esperma escorrendo por entre os dedos, sentia uma solidão tão profunda e uma dor tão contundente que chorava. Apenas lágrimas. Nem um soluço sequer... Não conseguia entender aquilo. Achava que era porque se masturbava em demasia e sempre prometia a si mesmo que ia parar. O fato é que ele não conseguia, pois ao introduzir a chave na fechadura já estava excitado. E lá ia ele de novo fazer uma reverência a Onã.
Sua dor aumentava a cada dia e, a cada dia se afastava mais das pessoas. Luis, em todos esses anos, nunca tocara sexualmente ninguém. Sua masturbação era solitária, onde seu objeto de inspiração era ele mesmo (havia um espelho postado no teto, sobre a sua cama, no qual ele se olhava enquanto se tocava).
Seu sofrimento aumentou, quando em uma confraternização no sítio do subgerente da fábrica, a qual relutara muito para ir. À beira da piscina ele viu Fábio, o office boy, metido numa sunga apertada que fazia enaltecer o contorno das nádegas rijas e o pênis que se desenhava sob a lycra da vestimenta minúscula.
Luis, no auge dos seus quarenta anos, nunca havia reparado outro homem que não ele próprio (aliás, nem outro ser humano). Ficou excitado no mesmo instante e tentou desviar o olhar envergonhado de si mesmo. O que é isso? Eu não sou veado, disse para si mesmo. Mas a anatomia de Fábio lhe perseguiu o resto do dia. Não conseguiu fazer mais nada e foi pra casa, angustiado com a lembrança que lhe perseguia. Não conseguiu dormir, não se masturbou como de costume antes de dormir e não foi trabalhar no dia seguinte (nunca havia faltado um dia sequer). Teve febre, dores de cabeça e calafrios que lhe percorriam do Cox à nuca. E a lembrança que, como um fantasma lhe perseguia o tempo todo: A imagem do Office boy em trajes de banho. Eu não poso ser veado, pensou ele. Vou ter que despedir o rapaz para continuar minha vida. E assim passou o dia.
Terça, de manhã (depois da troca da vigilância, era sempre o primeiro a chegar) Fábio já estava no portão esperando. Acho que Sidarta Gautama está pregando uma peça em mim, pensou ele. – Bom dia Dr. Luis, ficamos preocupados ontem... O senhor nunca falta, disse Fábio. E uma angústia violenta se apoderou de Luis (o medo que sentia do pai, e de ver as surras que via a mãe levar em silêncio para lhe proteger, tudo veio à tona). Será que ele percebeu alguma coisa? (pensou ele). Vou ter que despedir! Mas ele sempre faz o serviço direito, murmurou par si mesmo. Bom dia, respondeu secamente. Já estou melhor, obrigado.
Durante o expediente, lá estava o moleque olhando para Luis. Ou será que Luis, com sua mania de perfeição no trabalho nunca havia reparado em Fábio, que aparentava ter uns vinte e poucos anos. Ah Sidarta, afasta este carma de mim (pensou). E foi despachando os documentos, ordens de serviço, planilhas de custo a esmo como que para se livrar da presença do rapaz que estava do outro lado da sala. Muniu-se de coragem e falou: - Você quer alguma coisa? Tô perando os seus despachos para entregar, respondeu Fábio. E assim o dia escorreu vagarosamente até o fim do expediente.
A tristeza tomou conta de Luis. Não dormia, não se masturbava, não comia, não se exercitava. Trabalhar era uma tortura, pois não conseguia se concentrar. Resolveu procurar um médico que lhe encaminhou a um psiquiatra.
Durante a consulta, enquanto Luis vomitava sua dor, o medico pensou: Esse cara é uma bichona enrustida, mas a dor dele é real. Tá passando por um período depressivo violento. Depois de ouvir atentamente a história, o medico lhe receitou um antidepressivo (o mesmo da Lady Di) e ansiolítico para dormir. Aconselhou também tirar uns dias de repouso e encontrar um bicho de estimação.
O remédio parece ter surtido efeito. Voltou a trabalhar e resolvera ir atrás de um animal de estimação (que na verdade representava ele mesmo – um peixe asiático muito bonito e solitário, que estava muito bem no seu universo microscópico). Mas não era só isso. Havia mais. Ainda tinha o Office boy.
Um dia, entrou no seu gabinete e Fábio estava lá. O que deseja senhor Fábio? Disse ele polidamente. O senhor doutor!

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